O Sol Em Seus Óculos Escuros

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Toda manhã ela abria a janela de seu quarto e costumava descansar os cotovelos sobre o peitoril, contemplando o campo verdejante e vivo a sua frente, e mais adiante as colinas delineando o horizonte.

Por volta das sete, ela seguia a esmo para a escola montada em sua bicicleta, primeiramente sobre o caminho de cascalho e depois pegando a estrada. Tinha o hábito de assobiar ao vento, de manter os dedos cingidos no guidão atentos caso fosse surpreendida pela urgência de utilizar o freio, ao som da cesta da bicicleta sacolejando contra o metal.

Eu voltava a observá-la nas aulas de educação física, torcendo espirituosamente para vê-la se enquadrar no cenário que tanto estava em contraponto consigo. Seus esforços pouco louváveis no salto com vara, ou a expressão frustrada em seu rosto após quase quebrar o pescoço na tentativa de dar uma cambalhota no tatame.

E como a maioria das pessoas, ela nunca olhava diretamente para mim.

Observá-la concretizou-se numa obsessão, e de imediato eu mal me dei conta. Pouco a pouco os pormenores de sua existência foram se anexando em minha percepção. A mania de sorver com a língua a umidade do lábio inferior em um dia acalorado, ou o enlevo pelas pequenas coisas que a vida natural despertava em sua linguagem corporal, quando deitada na relva, sob a sombra de um olmo, olhando diretamente para as nuvens velejando no céu côncavo, mas nunca deixando seus olhos se esgueirarem ao encontro de toda minha grandeza. Recordo-me da época em que ela ainda era uma forma de vida pubescente, quando seu corpo foi ganhando vitalidade, despertando uma energia feminina cujo eu assistira brotar nas incontáveis mulheres no decorrer do envelhecimento da grande bola giratória.

Mas nunca foram iguais a ela. E seus óculos escuros: minha maldição.

Sou uma forma de vida feita de calor, o calor primordial, o fogo mais pudico e intangível que existe; sou uma pira gigante e minha simples existência garante a vida de milhões de outras formas de vida, que se alimentam do meu calor e contemplam o próprio mundo com a minha luz.

Quando a grande bola termina um ciclo giratório, eu espero, impaciente, para que sua outra forma se volte para mim novamente, assim possibilitando que eu continue a fitá-la. São doze horas intermináveis, doze horas de ponderação, doze horas de espera. Sempre fui paciente, desde o processo em que o homem aprendera a caminhar com as duas pernas, que durou um tempo carente de limites.

Quanto aos dinossauros, fora maçante estudar como as espécies aprenderam a andar em bando. Os herbívoros da mesma família não possuíam muito tempo de vida diante dos predadores, até que se deram conta do quanto era sumamente mais seguro andar em bando, acrescentando indiretamente ao grupo todos os conceitos de sociedade, sem a precisão de uma ata ou papelada ou assinatura ou concessões ou voto ou definições de monarquia ou feudalismo ou democracia – emanciparam-se do período de barbarismo antes dos homens. Os tiranossauros, por exemplo, não careciam da mesma necessidade de companhia, muito menos justificavam seus atos, exerciam o poder da tirania, e a força de seus dentes eram sua prerrogativa.

Após a abolição da república, os imperadores romanos foram os governantes mais parecidos com os espécimes carnívoros. Não encontravam meios de apaziguar seu despotismo, tornando cada carnificina servida na guerra em um ato heroico e puro, endeusando seus centuriões, enquanto toda riqueza com a qual se alimentava e engordava o bucho do Estado fosse desfrutada apenas por seus patrícios, e a escravidão se consolidasse como o pilar da economia. Porém, durante essa época, a grande bola giratória não passava de um vazio ocupado pela sensibilidade pela perfeição dos grandes, onde imperadores amavam sua própria imagem refletida no cristal da água, e o hedonismo massificado que não passava de uma válvula de escape.

Às pequenas coisas.

Os valores simplórios dilataram os olhos convictos e presunçosos da aristocracia francesa colocando à prova toda mesquinhez e mal-amor de uma monarquia estigmatizada pelo sedentarismo e avareza. O Mal do Século foi pego pelo rabo, foi balançado no ar e sua cara e boca babosa foram arrastados pelo chão áspero e sangrento da Liberdade.

De imediato, a Liberdade em si não passou de uma ideia, para depois se tornar a primeira propaganda de comercio livre, amante de uma insurgente Revolução Industrial. Livre para pertencer a quem quiser e para servir a quem melhor entender. Mas a força braçal da prole, os ideais, toda a vontade conjunta, obstruídos pelo imperialismo napoleônico. A força imperial apoderada da arte da guerra, movida por entranhas de engrenagens que botam para funcionar toda ambição e desejo incorporados pelo poder. A força que se coloca acima das demais nacionalidades, subjuga a fraqueza inerente às civilizações menos favorecidas.

A arte da guerra e a conquista e a gloria, a arte dos Césares, macedônicos, saxões, e os novos revolucionários, em algum lugar no Japão ou no âmago da America. Uma bola-giratória tão grande para tão poucos brincarem de ser dono.

Essas pequenas pessoas.

Elas definitivamente se acostumaram a serem governadas por loucos.

Todos sob o pedestal.

Até então, tudo não passara de monotonia. Até mesmo as bombas e os tanques, a Cortina de Ferro, e as gangues de rua – onde os pequenos buscaram seu próprio pedaço de gloria e de poder de liderança do seu lado do paraíso.

Esperei pacientemente. Eu desconhecia pelo que tanto esperava. Até então, todos os eventos não passaram de disparates. Todos esses homens, muitos deles me adoraram em eras enterradas, deixando como espólio apenas sua curiosidade pelo desconhecido; mas nenhuma devoção impediu que qualquer um subisse no pedestal. Ninguém deixou de se adorar.

E eu continuei esperando.

Uma volta completa que a bola dá ao meu redor não me passa de um pestanejar. A grandeza em que os pequenos se encaixam torna-se uma insignificância para mim. Eu poderia destruí-los com um vislumbre da minha vontade, com uma fração mínima do que sou. Mesmo assim eu esperei.

Após algum tempo eles inventam novas maneiras de olhar diretamente para mim, nenhum desses métodos envolve uma contemplação recíproca. Apenas uma rápida observação direta e eles perderiam o dom da visão.

Eu continuei esperando por ela, me divertindo com os demais, que se portavam como em meu lugar sem serem eu, e eu, que pouco me regozijei de minha própria posição, separei um pedaço de meu tempo para assisti-los. A bola azul não fora mais emocionante que as demais do Sistema. O planeta vermelho, as montanhas adquirindo novas formas em um processo longínquo, o movimento de uma pedra caindo do barranco e rolando desajeitada até encontrar o chão, fora tão entusiástico quanto todo o processo de existência da bola giratória e azul.

Até a espera terminar.

Seu nome, de nada me serve. Tudo o que sei sobre ela é que aos seus cinco anos perdeu o medo de cair e trocou o triciclo por uma bicicleta. Lembro-me dela tombando sobre a grama de seu quintal natural, rejeitando a comiseração do pai ao tentar ajudá-la. Houve aquele dia em que seus braços magros e alvos buscavam força para nadar no lago durante as férias de verão. Aos doze anos, cedeu seus lábios ao primeiro garoto que arriscou beijá-la. Mas ela sempre preferiu o velho olmo, o galho rijo e descascado que usava de cama à sesta. Trocou as pessoas pela presença dos seus sonhos, as conversas alheias pela voz do vento falando através das folhas do bosque e do sino na porta de entrada de sua casa.

Sempre imaginei sua expressão ao acordar de manhã se deparando com meu primeiro feixe sob a tênue fresta de sua janela, que eu sempre doei orgulhoso.

A maioria não nota minha presença, assim como não notam o oxigênio que respiram, ou o palpitar do próprio coração. São coisas insignificantes demais, por serem gratuitas. Quando tenho a atenção de todos, quando ela pode me olhar, ela precisa usar seus óculos escuros, de lentes esmaecidas, e então ela me observa, nota minha grandeza com o mesmo olhar desprovido de interesse com que olha para as casas de seu povoado, para as peculiaridades da vida das pessoas que a cercam, a mesma falta de atração pelo ponteiro do relógio. Ignorar o tempo é me ignorar, pois sou o principio de seu entendimento.

Vocês devem se lembrar do que eu dissera a respeito das voltas do grande mundo não passar de um pestanejar para mim, mas não seria supérfluo acrescentar que uma breve volta de doze horas se tornou uma eternidade. O que ela faz durante o tempo em que é engolida pela escuridão primordial? Há tanto para ver e me ocupo apenas na minha paisagem mental voltada a ela. Uma hora sem ela, o homem aprendendo a caminhar sobre as duas pernas; duas horas, os dinossauros criam sua própria sociedade, antes mesmo do homem; três horas, Noé está construindo sua arca, com a ajuda dos seus filhos e o apoio de sua esposa, e pela primeira e última vez, eu vejo o verdadeiro trabalho, o duro e puro trabalho original, aquele que o homem faz para si mesmo e divide o resultado com os demais; cinco horas, Roma está em chamas; seis horas, Arthur ergue a espada do ventre da rocha; nove horas, surge a Era Meiji e uma nova visão para o futuro de compartilhamento mercantil entre nações ímpares; onze horas, a mesma nação que ascende para um novo futuro é bombardeada; doze horas, o Iraque é invadido.

Esperá-la é minha maior provação. Minha tortura. E sinto a bola azul debochando de mim cada vez que completa uma volta – uma vingança pelo pouco crédito que sempre lhe depositei.

E finalmente quando posso vê-la, seu sorriso está um por cento mais gracioso que da última vez, ela está um por cento mais inteligente que no outro dia, e seus óculos escuros estão levantados sobre seus cabelos castanhos, como se fosse um arco. O dia é quente, meu calor é generoso, e ela sente que precisa me olhar, dedicar um pouco de atenção ao responsável; obviamente, como vocês já esperavam, tudo o que posso captar de volta é minha própria luz brilhando feito um minúsculo vaga-lume em sua lente. Seus olhos, sempre estarão vendados, um pedaço dela que não posso ter, a última peça para admirar o quebra-cabeça montado.

Ela não faria isso, não daria seus olhos para ter alguns poucos segundos da minha imagem original, ofuscante, ostentosa, fulgurante, subjugadora. Com todo meu poder não posso ter isto. O tempo se arrasta feito uma lesma, e ela cresce, vai para a cidade grande, o que torna mais difícil seguir sua presença entre tantos outros, sob os edifícios levantados entre nós, e os metrôs no labirinto subterrâneo.

Como uma mulher adulta, convicta e segura, é que eu mais desejo ver o que ela faz em suas doze horas vetadas dos meus ultravioletas. Eu faria, mudaria o circulo das coisas por um pouco mais de seu mundo particular, de sua quintessência. Quero desfazê-lo com a imponência da minha luz. Nenhuma força e nenhum conhecimento no universo se equipara à parcela mais inferior de mim, e ainda assim, eu mudaria tudo para ter um pouco dela, mesmo que eu não possa tocá-la, nem olhar diretamente em seus olhos. Uma hora, um minuto a mais.

Ela vive na cidade, mas traz consigo o campo, as folhas ainda farfalham no seu coração, e as águas do lago ainda envolvem seu corpo. Mesmo mudando o jeito de se vestir, ou usando piercing no septo, ou com o corte de cabelo diferente. Quando adulta, ao invés de perder seus encantos, ela lapida sua virtuosidade, o tempo a sobrecarrega de força individual, e quando observa o novo mundo que acorda diante de si, da janela de seu apartamento, os prédios e arranha-céus vão apodrecendo em seu encanto. Ela tenta voltar para seu passado, em algum lugar lá no campo, entre as arvores e os córregos e o bosque; o caminho de cascalho até a estrada. Havia apenas um que a seguira até a nova vida, que estava lá com ela e continuou compartilhando de sua presença. Sim, ela se lembra.

Ela coloca seus óculos e volta o rosto para mim, da janela de seu apartamento. Lá embaixo, um ponto entre tantos pontos insignificantes. E seu dedo se apoia abaixo da alça, e lentamente os óculos vão sendo erguidos, e seus olhos cerrados são descobertos, e quando um pouco de luz é capturada por aquelas frestas graciosas, porém pouco generosas, é quando ela afasta o rosto para o lado e deixa seus óculos cobrirem mais uma vez a última peça do quebra-cabeça.

FIM