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Quando Eu Conheci Chico Buarque

 

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Eu tinha esperado a chuva estiar antes de sair do Conjunto Nacional. Apesar de ficar andando pela Livraria Cultura em torno de três quartos de hora não comprei nada, enfim. Sai pela Alameda Santos para evitar todo aquele movimento proporcionado pela Paulista que nem mesmo a chuva consegue conter.

Foi quando eu o vi parado, sua sombra projetada sobre a calçada molhada daquele resto de água que reflete o dourado do céu vespertino. Ele estava parado, acabara de acender um cigarro e parecia meditar os pensamentos que vêm somente depois que a nicotina refresca os pulmões para em seguida ser soprada lábios afora. Eu não tinha assunto, mas não poderia deixá-lo escapar, gostaria de dizer qualquer coisa, dizer que sou fã das composições e dos romances; mas de imediato achei que seria uma chateação.

“Ei, Chico Buarque, você teria um cigarro?” perguntei a ele. Como todos sabem, eu não fumo, mas foi a melhor coisa que me veio à mente.

Então Chico Buarque olhou para mim, não disse nada, tirou um maço de Lucky Strike do bolso e de onde eu estava pude ver que havia somente um cigarro. Ele me respondeu:

“Acabaram os meus cigarros… Quero dizer, eu só tenho um. Um homem nunca dá seu último cigarro, é quase uma convenção social” ele sorriu, olhou mais uma vez para o maço amassado em sua mão, e continuou, dessa vez sério e disse quase como se estivesse se desculpando “não é como pegar o último pedaço de pizza, guardar um último cigarro no maço é como guardar uma última epifania para poder usá-la mais tarde” ele voltou a sorrir e concluiu: “guarde esse conselho como se fosse uma pérola, e sua memória uma concha” e mais uma vez seu sorriso caricato.

Acho imprescindível notar aqui que este encontro ocorreu antes de Chico lançar seu romance O Irmão Alemão e da participação na música O Trono do Estudar, e alguns meses após ele ter saído na capa da edição de aniversário da Revista Rolling Stone.

Recordo-me de ter enfiado as mãos nos bolsos e olhar para o asfalto quase seco, enquanto o céu vermelho arrastava lentamente suas nuvens para o outro lado do globo. Começou a ventar um vento fresco, então Chico Buarque olhou para mim ali paradão e não sei se foi por se sentir culpado ou por mero capricho, mas ele me pediu para acompanhá-lo.

Descemos a Augusta até a desembocarmos na Alameda Itu, por onde andamos, se não me engano, por uns quatro quarteirões. Paramos em frente ao prédio onde ele costumava se hospedar quando vinha a São Paulo. “FHC mora a alguns quarteirões daqui” ele me disse, sem pretensão alguma de falar sobre política. Eu sempre conheci suas preferências políticas e logo segurei qualquer intenção de falar a respeito.

Entramos em seu apartamento, um imóvel com espaço agradável e que parecia se alargar mais devido a pouca mobília. Chico disse que quando vinha a Sampa (sim, ele disse Sampa) não permanecia por muito tempo, por isso o apartamento tinha a aparência de um imóvel ainda a venda.

“Mesmo ficando pouco tempo na cidade, prefiro ficar em um apartamento alugado a me hospedar num hotel. Odeio me sentir um turista quando venho a Sampa.”

Essa última frase me agradou. Então ele foi a um cômodo e voltou com um maço de Lucky Strike e tirou dois cigarros, um pra mim e outro para ele.

“Vamos para a varanda, não quero que o cheiro de cigarro impregne o apartamento, tenho expectativa de revendê-lo algum dia.”

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Acendemos nossos respectivos cigarros na varanda, que tinha uma excelente vista para a cidade, perguntei se podia tirar foto dele, mas ele não deixou, apenas de seu apartamento. Pensei em dizer qualquer coisa, falar sobre suas canções e livros, mas imaginei que artistas devem odiar falar sobre seus trabalhos, como se já não houvesse críticas e matérias suficientes.

“Você gosta de Pink Floyd?” perguntei.

“Pink Floyd, não é o mesmo que perguntar se eu gosto de arroz com feijão?” ele respondeu, um pouco ríspido, depois olhou para o horizonte e sorriu.

“Sabe, eu também escrevo.”

“Você já leu Budapest?”

“Sim, mas preferi Benjamim.”

“O que você achou de Budapest? Quero dizer, se você gosta de escrever deve gostar de ler também, e deve ser crítico.”

“Bem, não sou nenhum crítico profissional.”

“Nenhum crítico o é até alguém dizer que ele o é” agora ele falava mais bem humorado.

“Bem, Sr. Buarque, vejo em Budapest um forte sentimento de desconforto, uma espécie de desconforto hipocondríaco, kafkiano sem ser kafkiano” sorri, e tossi ao mesmo tempo, afinal, como todos sabem, não sou fumante. Mas naquele momento o tinha de ser.

“Não sei se entendi o que você disse, talvez você tenha dito desse jeito pra me confundir” ele sorriu novamente e me disse “você é fumante?”

“Não quer saber sobre o que eu escrevo?”

“Diga-me qual editora te publica que depois eu leio a resenha.”

“Tecnicamente nenhuma editora me publica, mas não quer dizer que eu…”

“Diga um aforismo para São Paulo.”

“Como?”

“A melhor forma de separar amadores de não amadores, quem pode e quem não pode produzir frases curtas em curtos espaços.”

“Irresistivelmente desconcertante. São Paulo é isso.”

“Cigarros?”

“Fumar é um jeito conveniente de morrer.”

Ele sorriu e depois disse “Chuva.”

“Pode lavar nossos corpos, mas nunca nossa consciência.”

“Eu trocaria consciência por alma.”

Por um instante fiquei a olhá-lo e era de fato aquele que é considerado o maior compositor brasileiro desde a chegada das caravelas. Ganhador do Festival de Música Popular Brasileira de 1966, e vencedor de três prêmios Jabuti; era um velho com um sólido sorriso jovial, olhos azuis bem vivos, diferente do que se espera de um homem de cabelos brancos e intelecto intimidador.

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“Se você não fuma não precisa fingir para me agradar” ele disse novamente, dessa vez sem sorrir “você deve beber algo, não?”

“Se tiver uísque, de preferência Jack Daniel’s.”

Chico entrou enquanto eu o esperava no sofá da varanda, voltou com dois copos de uísque com gelo e um cinzeiro. Sentamos numa mesa próxima. Fiz o gelo tilintar e ele sorriu; talvez esperasse que eu fizesse isso.

“Gostaria de fazer mais alguma pergunta? Você parece se coçar por isso.”

“Que tal sobre política, você ainda fala sobre política? Aposto que odeia falar sobre política hoje em dia.”

“Falar sobre política hoje em dia é complicado, principalmente na minha idade; esse é um privilégio para os jovens. Sinceramente é mais fácil ser crítico em períodos como os da ditadura, hoje em dia o inimigo político é um pouco mais sutil, exige um olhar mais arguto, um olhar mais jovem.”

Ele acendeu outro cigarro e teve prazer de fazê-lo enquanto bebia da dose de uísque. Depois ele perguntou: “por que a preferência por Jack Daniel’s?”

“É o único uísque que eu de fato reconheço o sabor, faz-me me sentir em casa.”

“Eu sei muito bem como é isso Ivan, eu utilizo a mesma fórmula quando viajo a um lugar diferente.”

“Já ouviu a teoria de que você não escreve seus livros? Que usam seu nome como vitrine” arrisquei ponderar.

“As pessoas falam demais, o que você acha?”

“Não se encaixa muito no seu perfil, né…” admito que sorri meio abobalhado.

“O perfil que você tem de mim é o perfil midiático; mas e o Chico comum, ele está imune a falhas de caráter?” respondeu de forma bem amistosa, não parecia ser um homem que se deixasse chatear facilmente “quando você é conhecido como símbolo cultural as pessoas te veem como um totem. Eles pensam que você deve ser um exemplo de conduta social, o que é uma tolice. É como dizer que Tom Jobim não peidava ou que Machado de Assis não se masturbava.”

Eu sorri e ele parecia bem satisfeito ao ter dito aquilo. Ficou me olhando, e seu olhar era o de um homem bem tranquilo, não um olhar de um senhor bem tranquilo, o de um homem no seu auge! Dificilmente você o se referiria a ele de senhor isso ou senhor aquilo.

Foi neste instante, até onde me lembro, que tentei esquecer que estava conversando com Chico Buarque.

“Vou te dizer por que é uma tolice” Chico continuou a dizer: “se as pessoas esperam que você seja um exemplo de conduta moral, você está sendo um exemplo para quem? O fato de Pelé fazer mil gols tem alguma coisa a ver com o caráter dele? O fato de eu escrever e compor músicas engajadas e até mesmo – a primeira vista – complexas, me impede de encher a cara até vomitar, ou fumar ou falar palavrão? Se eu for uma conduta moral ambulante, só estarei provando que as outras pessoas não podem ser; quando você é um artista e mostra suas falhas de caráter, apenas prova aos outros que isso é natural, e que esses defeitos naturais não impedem ninguém de nada.”

“Entendo, você nunca escondeu que na sua juventude… pegava carro ‘emprestado’ para dar umas voltas.”

“Sim, eu nunca escondi que roubava carro pra rodar o Rio de Janeiro, hoje não sou melhor que aquele garoto inquieto” ele sorriu novamente, apagando o cigarro no cinzeiro “vou te dizer uma coisa Ivan…”

“Ivan Freitas.”

“Vou te dizer uma coisa Sr. Ivan Freitas, essa vida é mais que uma refeição de ostras.”

Quando percebi, a cortina da noite já havia sido puxada, a cidade que até então berrava, agora sussurrava. E eu sentia o Bourbon me subir à cabeça.

“Qual sua música de favorita de Chico Buarque?” ele me perguntou.

“Difícil dizer, mas posso te dizer qual foi a mais impactante da minha vida.”

“Qual?”

Era eu ou o álcool falando?

“João e Maria.”

“O senhor está falando sério?”

“Lembro-me de ouvi-la quando ainda estava no prézinho, tem um puta valor nostálgico para mim. Um puta valor!”

 

O Moedor de Carne Humana

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O jeito dela andar era um tanto engraçado, pelo menos ao olhar de muitos; peculiar talvez seja o termo adequado. Os pés pareciam um tanto desajeitados enfiados nos sapatos pretos, os joelhos em movimento desenvolto, mas do ponto de vista de outros era um jeito único que lhe conferia um certo charme por tal singularidade.

A sacudir o quadril o vestido balança batendo em seus joelhos – um vestido azul-marinho, pingado de bolinhas brancas. Um lenço amarelo cingindo seu pescoço, enquanto seu rosto é sombreado pela aba do chapéu de veraneio. Sua pele é branca a tal ponto que quase chega a ser rosada, fazendo seus braços e pernas parecerem lençóis transparentes. Em torno de seu ombro está a alça de sua bolsa, enquanto que debaixo do outro braço há jornais dobrados.

Ela entra no saguão de um prédio de apartamentos, acenando para o porteiro – refestelado na poltrona atrás de sua mesa – e entra no elevador. No sexto andar ela desce e antes de bater à porta do apartamento 66 seu punho se retém no caminho. Ela encosta o ouvido na porta, escutando o som do trompete vibrando dentro do cômodo um jazz triste e solitário, uma voz que clama pelo silêncio. Ela encosta a palma da mão à porta e é como se tocasse o peito de um homem, intimamente, enquanto que o som do trompete é como o palpitar quente do coração.

Sua mão vasculha a bolsa e retira uma chave. Ela enfia a chave no buraco da fechadura, antes de virar, ela para e reflete durante um tempo, dentro de si a vontade de dar meia-volta; “já chega disso!” pensa. Então, com misto de dúvida e arrependimento, ela destranca a porta e a abre.

Um homem, nem velho e nem jovem, de cabelos grisalhos, está sentado numa cadeira ao lado da janela. Ele maneja o trompete com as mãos e o sopro de seus lábios possui poder alquímico. Mesmo ao entrar da mulher de vestido azul-marinho ao apartamento – seguido do bater da porta, como que para lhe tomar a atenção – ele se mantém fiel à sua atividade, como se sequer tivesse percebido.

Ela deixa a bolsa sobre o sofá, aspirando o cheiro de mofo do apartamento, trazendo para as cordas nasais o bolor das paredes e o calor de um cômodo aparentemente aconchegante. Gradualmente o som do trompete oscila: ao término, o homem observa-a, como que surpreso, deixando o instrumento de lado.

“Oi” ela diz.

Ele sorri, levanta-se e vai até ela, retirando-lhe o chapéu da cabeça, deixando os cabelos vermelhos se esparramarem em forma de caracóis e pousar-lhe nos ombros. Ele olha profundamente em seus olhos e seu rosto descoberto das abas do chapéu é tão pálido quanto seus braços e pernas, salpicado de sardas laranjas, que nunca chegam a encostarem umas nas outras. Ela solta um sorriso forçado, de lábios fechados, lábios finos e quase incolores. Ela sabe que ele detesta batom, aprendera – a custo de erros sucessivos – a agradá-lo.

“O que há de novo no front?” ele diz. Sua voz parecendo exausta.

Ela bate os jornais contra o peito dele e se deixa afundar no sofá, abre a bolsa e retira um maço de cigarros.

“Escocesa” o homem diz “você sabe muito bem que cigarro é proibido aqui dentro.”

“Quantas vezes preciso dizer que não sou escocesa?” Ela responde, depois acende o cigarro.

“As únicas pessoas no mundo que possuem os verdadeiros e selvagens fios de cabelos vermelhos são as escocesas, de pele branca e rosto sardento” disse ele, vitorioso.

Ela não dá a mínima. Mantém o cigarro aceso.

Ele a observa com prazer, o prazer de ver algo que gosta, agindo da forma como espera que aja, divertido como ver a vida se desenhando involuntariamente, mas da forma como espera que cada contorno se transcreva. Ela cruza as pernas, ele sente um dejà vu, talvez houvesse previsto este movimento, ou fosse uma crença infantil de que nada foge de seu controle.

O homem apoia as mãos no quadril e joga a cabeça para trás, arqueando o torso, sentindo o estalar da coluna, voltando à posição original em seguida, aos suspiros. Volta a se sentar na cadeira à janela, olhando para o mundo do lado de fora, o jornal espremido em suas mãos. Ele torce o jornal e é como se torcesse o mundo: pois ali o mundo estava comprimido. Do lado de fora da janela, ele podia enxergar a cidade, mas sem nenhum desejo. Nenhuma cobiça ou admiração.

Ele volta o olhar para a mulher de cabelos ruivos, olhos tristes, repletos de coisas enterradas por trás da íris. A mulher fumando, seu único contato com o mundo lá fora. O mundo que para ele tornou-se cansativo e mal. Doentio. Cancerígeno.

Ele abre o jornal e seus olhos esquadrinham pelas páginas. Algo de novo no front? Nada de novo sob o sol. A humanidade fedendo a carnificina e corpos queimados em algum lugar na Nigéria, algum lugar no Oriente Médio, algum lugar na Ucrânia. Ele não podia deixar de pensar que a guerra de alguma forma estava ligada à antiga exploração europeia no continente africano e no oriente. Todo mal e carnificina de alguma forma estava ligado a pessoas bem vestidas e educadas, refinadas e de prosa agradável e inteligente. Todo o mal estaria entrelaçado à única coisa boa no mundo: a boa cultura.

O jornal fedia a gordura humana na frigideira.

Se existia algo de belo, verdadeiro e capaz de fazer um coração apaixonar-se sem sentir culpa, eram esses encaracolados cabelos vermelhos. Mesmo que o mundo sempre estivesse caótico e barulhento, haveria pequenas coisas para se apegar e amar antes do fim.

Mais um suspiro.

“Vai ficar caladão, me olhando deste jeito?” disse a mulher ruiva “você me dá arrepios quando me olha assim.”

O olhar dele deslizou pela superfície das cruzadas pernas dela, como uma prancha sobre as ondas, sentindo o sabor de cada deslize, até onde começa o vestido, podendo até mesmo sentir o cheiro. Um botão de rosa prestes a desabrochar. Amor não se compra, mas com sexo a historia é diferente.

“Cachorra” ele respondeu, sentindo o peito apertar: “vadia!” continuou, levantou-se e pegando-a pela nuca, virou-a contra o sofá, com os dedos da mão enterrados nos cabelos dela; ela com as mãos apoiadas no braço do sofá, e os dedos dele pincelando a aba do vestido dela, descobrindo a recendente carne macia valvulada.

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Ele toma café lendo o jornal, agora com óculos antecipando os olhos, os músculos de seu corpo relaxados – apaziguados nervos sob as têmporas. Suas narinas sorvendo o cheiro do café. Ela deitada de lado no sofá – uma perna sobre a outra –, olhando para ele, o cigarro pendendo dos lábios exaustos. Observando-o, percebe como se entrega à leitura, o frenesi em seu olhar faminto, a firmeza com que seus dedos seguram a alça da caneca de café.

“Eu tive um sonho noite passada” ele diz sem tirar os olhos do jornal “se lembra daquele filme do Pink Floyd, em que as crianças pulam dentro de um moedor de carne? Então, eu andava pela plataforma e mesmo sabendo o que haveria ao final continuei caminhando até entrar no moedor, até virar carne moída; depois me colocaram numa bandeja, cobriram-na com uma redoma; eu era levado a algum lugar, dentro da redoma eu podia escutar os chomps! chomps!, línguas saltando contra palatos, e ao levantarem a redoma,  lá estava uma mesa muito refinada e abundante de comida, iluminada por velas enfiadas em castiçais dourados, rodeada por aristocratas de toda espécie, todos muito esnobes.”

“Às vezes você tem uns sonhos assustadores” respondeu em tom áspero.

O olhar dele se deslocou do jornal para ela e de volta para o jornal.

“Você vai precisar de algo para comer?” ela disse.

“Não, o garoto já trouxe o que eu precisava.”

“Então ele continua vindo.”

“Cada um faz a sua parte, se eu te pedir para me trazer de comer, você se perderá do seu papel. Cada um tem seu papel e é preciso manter assim para que haja ordem.”

“Você não acha que esse tal garoto é muito jovem para ajudá-lo a manter o seu enclausuramento?”

Virando a página do jornal, ele não responde, levanta-se e entra num quarto contíguo. A mulher de cabelos vermelhos o acompanha com os olhos, senta-se, afunda a cabeça do cigarro no cinzeiro e volta a se deitar, uma perna sobre a outra.

As coisas que ele viu, em seu trabalho jornalístico, no Iraque, no Marrocos, no Haiti, em outros lugares, tantos lugares… Ele nunca diz nada. Às vezes parece se lembrar e tenta expulsar com a música, com o sopro. Naquele dia ele acordou assustado, como um cachorrinho, sonhou que comia um bolo feito de barro e lama, que não conseguia parar de mastigar, que podia sentir o gosto de terra escorregando garganta abaixo; disse que era assim que se desjejuava no

Ele volta com papéis em mãos e os deixa sobre a mesa de centro.

“São os artigos dessa semana?” a mulher pondera.

Ele volta para a janela e para a observação do mundo.

“Veja só os vendedores ambulantes, um policial mal aparece flanando pela esquina e eles já levantam seus tapetes de quinquilharias e saem aos corres; que puta cena engraçada! Eles são um barato.”

Ele voltou a se sentar, ameaçou pegar o trompete, mas desistiu, para dizer:

“Sabe o que me lembram esses camelôs, os vendedores ambulantes de Jesuralém, e eles comercializam lá da mesma forma que faziam há uns oitocentos anos.”

A mulher gosta do jeito dele de falar, de como se apega ao problema, e de como o disseca como se fosse uma coisa simples, um simples contemplar de um quadro na parede, de cores sutis. Ela levanta a primeira folha da pilha sobre a mesa de centro e se deixa levar pelo texto.

“Eu gosto do que você escreve… Não que eu leia muito, na verdade eu detesto ler; não leio revistas e nem jornais, apenas o que você escreve. Mas eu gosto. Talvez por ser você quem escreva, por te conhecer, ler em primeira mão antes de ir às editoras e das editoras para as bancas.”

Ela lambe os lábios e volta a se situar no texto.

[Há um inverno que as pessoas ignoram, o inverno da alma. Ninguém sente mais nada, pois nada mais é novo, tudo se adaptou ao comum, e o comum às vezes perde sua condição de absurdo, exatamente por ser comum. A cultura do comum é vendida nas ruas, nas praças e nos parques, na programação televisiva e nas redes sociais, permanece imbatível nas vitrines das lojas. A informação controla o ponto de vista do bom cidadão, assim como um pastor controla os medos e anseios de suas “ovelhas”. O que está acontecendo na Nigéria não é bom, nem natural, mas está acontecendo, e o que acontece com pessoas de pele negra tende a ser comum – mais quando para o mal que quando para bem. O que se espera de uma civilização de negros como etnia predominante nada mais é que movimentos terroristas, golpes de estado, guerra civil. Quando não acontece, então as coisas estão fora dos eixos, é do interesse do bom cidadão branco que uma civilização de negros se torne uma civilização de “esses africanos não têm jeito” ou “essa maldita terra esquecida por Deus”. As pessoas precisam acreditar nessa premissa, tanto os ricos quanto os pobres. Afinal de contas, o que serviria de melhor satisfação para o homem pobre senão poder ler sobre alguém mais pobre, e ainda poder ignorar a verdade nua e crua com desdém?]

Ela cessou a leitura por um instante. Ele olha para ela e através das bordas de seus olhos ele podia ler sua consciência. Indignação, talvez? Algo de bom e misterioso até mesmo para mulheres como ela. Mulheres verdadeiras, da mais pudica beleza fisionômica. Mesmo pessoas de plástico são capazes de extrair sentimentos.

“Você nunca se cansa disso?” ela pergunta, segurando as folhas em mãos como se pesassem toneladas.

“De quê?”

“De sempre ver tudo com o olhar mais frio.”

“Não, porque eu cansei de ignorar as coisas como elas são.”

“O mundo não é perfeito…”

“Não, mas o sopro do Miles Davis era. Pelo menos isso.”

“Você se castiga toda vez que faz isso, é como se pedisse pelo sofrimento.”

“É aí onde você está enganada; escrever é a melhor forma de exorcizar seus demônios. E minha querida, eu tenho demônios o suficiente para repovoar o inferno.”

Ele olhou de volta janela afora.

“Veja só, agora estão todos voltando, que cena engraçada” e sorriu.

“Quem está voltando?”

“Os ambulantes, oras. Os policiais sumiram e eles estão voltando para seus postos” mais uma risada: “eles se dariam muito bem em Jerusalém!”

Então você tem demônios para repovoar o inferno? Que vá você pro inferno sozinho. Você é inteligente, homem, mas está perdendo os parafusos. A solidão, pelo menos este tipo de solidão, nunca fez bem pra ninguém. Receio que um dia eu gire a chave nessa fechadura e ao abrir a porta me depare com seu cadáver pendurado por uma corda presa ao ventilador de teto. E o garoto; que exemplo você daria a ele, hein! Quer dizer que quanto mais inteligente mais maluco. Maluco e engraçado.

Ele volta a se sentar, segurando seu trompete abraçado contra o peito, como se fosse o filho único. A mulher de rosto sardento se levanta e vai até o banheiro. Ela gira o fecho da porta, apoia as mãos na pia enquanto fita o próprio reflexo no espelho. Toda vez que fazia isso encontrava dificuldade em se reconhecer. Ela fitava o próprio rosto sem conseguir acrescentar uma personalidade, e se fosse para dar forma à sua personalidade atual, dificilmente encontraria em seu semblante.

Ela vai até o vaso sanitário, abre a tampa e vê a água limpa e transparente, odorosa, aparentemente asséptica. Assim como as pessoas. O homem do outro lado da porta estava visivelmente acabado, se deteriorando, escorregando para um abismo do qual as demais pessoas conseguem se desviar. Ele não é como a água na privada, mas as demais pessoas costumam ser. Sempre conservadas e carregadas com o esplendor da vida. Porem sujas, com suas invisíveis bactérias sob as trincheiras.

Em seu ventre ela sente, um enjoo recrudescente, gradativo, e de repente a boca se abre e tudo o que comeu e bebeu durante o dia sai pra fora, infectando a aparente água límpida. Tudo de ruim, como exorcismo. Ao se erguer, limpa a boca com papel higiênico, abrindo a lata de lixo se depara com um troféu do Prêmio Esso, enterrado junto de papel sujo e maços de cigarro; percebe em seguida que o banheiro sutilmente cheira a cigarro. Cretino!

Enquanto sai do banheiro, ela volta para um cômodo que agora está escuro, todas as cortinas foram puxadas, a luz fora apagada e sobre a mesa de centro há duas velas acesas, juntamente de duas taças, cujo homem as preenche de vinho.

“Já representamos nosso lado… Selvagem” ele diz “agora iremos partir para a plataforma do romantismo.”

“Como se o amor pudesse ser comprado.”

“O amor só pode ser comprado, as variações de permuta divergem apenas no ponto de vista.”

Ela se senta no sofá, levanta a taça e ambos brindam, sem dizer nada, deixando o vinho descer a seco, escorrendo com seus sentimentos, anestesiando suas inquietações.

“Você acredita mesmo que o mundo está doente?”

“Não quero falar sobre o mundo, quero falar sobre você.”

“Não há nada para se falar a meu respeito.”

“Discordo.”

A taça dela é enchida novamente, dessa vez por um homem animado.

“Se quiser tenho algo mais forte.”

“Por enquanto o vinho já basta. Você não enche sua taça?”

Em resposta, ele emboca a garrafa nos lábios e deixa o vinho descer, pousa a garrafa sobre a mesa e olha para a mulher com um olhar dormente, enquanto um pouco do líquido escorrega pela lateral de sua boca. E diz:

“Eu preciso escrever sobre os vendedores ambulantes, a voz deles precisa ser ouvida.”

“E quem disse que eles querem dizer algo?”

O homem suspira, deixa as costas encontrarem conforto no sofá, pensando em qualquer coisa que não pudesse ser traduzida.

“Até os mortos procuram se expressar.”

Ok, você está chegando ao cume da maluquice.

“Todo mundo diz algo, mesmo que não perceba, homens como eu têm o trabalho de escolher o que precisa ser ecoado e o que precisa ser sussurrado; até então, as vozes mais importantes apenas conseguem sussurrar na mídia.”

“Ok, eu entendi.”

“Agora irei falar sério, escocesa” ele diz, novamente inclinando a garrafa sobre sua taça “Você acredita em Deus?”

“Não sei se quero falar sobre isso.”

“Você tem medo?”

“Sim, eu acredito, não sei por quê, mas acredito.”

“Algumas pessoas só querem tocar a vida, mas tem sempre a religião no meio.”

“Deus e religião são coisas diferentes.”

“Mas a religião só existe se houver um deus e sem a religião Deus perde sua mídia jornalística. Em outras palavras, não há Deus sem religião.”

Sem responder, ela dá uma bicada na taça de vinho.

“Você diz que não sabe por que acredita, isso é correto, a crença em Deus não deve ser baseada na razão; a única e verdadeira forma de acreditar é através da fé cega, senão não faz sentido.”

“Vamos só beber, sem dizer nada um pro outro.”

Como que atendendo ao pedido dela, o homem volta a encher as taças com vinho. Conforme o silêncio é prolongado por ambos, eles começam a perceber a sala mais escura. As duas velas acesas os fazem compreender uma grotesca atmosfera romântica do ambiente.

“Eu gosto do seu cabelo.”

Ela levanta o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio. Ele sorri e volta a beber, depois estende a mão, numa mesura para ela esperá-lo, levanta-se e vai para outro cômodo. A mulher o espera bebericando o vinho, procrastinando com pequenas bicadas de passarinho. Ao voltar, ele traz uma bandeja com pizza de micro-ondas.

“Serio mesmo?”

O homem separa da pizza um oitavo de pedaço e o levanta a altura da boca.

“Não há talheres?”

“Ainda temos nossas mãos, não? Devemos aproveitar o pouco que temos, mesmo que esse pouco seja mais que o suficiente.”

Ela levanta um pedaço e o leva à boca. Mastigando ao mesmo tempo em que fala, ela diz: “você poderia pelo menos pedir pizza por telefone.”

“O garoto me comprou esta, queria comê-la em um momento especial.”

“Você considera este momento tão especial assim?”

Continua a mastigar, sem resposta alguma. Para o homem, pouco importava o quanto tal momento significava para ela, conquanto que houvesse significado para si.

Conforme ele bebia as maçãs do rosto ficavam avermelhadas e suas pálpebras pareciam mais cansadas, assim como seu olhar.

“Deus estava nesta garrafa!” diz o homem, levantando a garrafa de vinho vazia “agora ele será digerido dentro de mim e depois vai ser mijado” sua voz trazendo um tom de velho embriagado. A mulher de cabelos encaracolados, dando pouco crédito ao que ele diz, nada responde.

“Você me lembra uma garota que conheci na juventude.”

“É mesmo?”

“Ela tinha o hábito de convidar um cara pra sair ao mesmo tempo em que convidava um cara com quem já saía; esse era o jeito dela de dar o fora em alguém.”

“O que te faz pensar que sou assim?”

“Você me lembra ela somente na aparência.”

“Obrigada.”

“Pelo o quê?”

“Por me chamar de jovem” ela sorriu “mas não bastaria ela dispensar o cara como uma pessoa normal?”

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Levantando-se, o homem acende a luz, porém mantendo as cortinas ainda baixadas. Vai ao gramofone sobre uma mesinha encostada na parede. Há um zumbido no ar, rouco, a agulha tocando o vinil, e depois vem o som, uma música, Do You Wanna Dance. Ele vai até a mulher, tirando-a para dançar. Seus dedos entrelaçados nos dela, a outra mão na cintura, passos lentos empobrecidos de coordenação motora.

Mas a única coisa que perambula por entre sua cadeia de pensamentos, enquanto dança ao escorrer da música, é no salto voluntário para dentro da máquina de moer carne humana. Diante da recordação, o cabelo dela já não lhe traz aroma algum, assim como o pescoço, e as mãos perdem a maciez. No fim das contas existe apenas uma bandeja numa mesa. Existem pessoas mastigando e falando e gracejando, simultaneamente, enquanto o mundo fica espremido e esquecido no espaço entre os dentes.

Ele a afasta e com poucas palavras pede para ela ir embora. A mulher, sem responder, pega a bolsa sobre o sofá e vai até a porta.

“Este é seu envelope” diz o homem apontando para o envelope sobre uma prateleira próxima à porta, ao lado de uma mascara de yoruba.

Sem cerimônia alguma, ela pega o envelope e o joga dentro da bolsa, retirando-se porta afora. Seus passos pelo corredor podem ser escutados enquanto ela se distancia, para depois aumentar novamente. Ela volta a entrar no apartamento e pega os textos dele sobre o sofá.

“Volto amanhã?”

Ele fica em silêncio.

“Hein?”

“Sim.”

Ela se retira novamente.

Sozinho, ele volta a se sentar perto da janela, com o trompete em mãos volta a soprar. Um som triste e enrustido, capaz de trazer melancolia ao coração duma criança.

Aquele velho hotel na Guiné Equatorial, aquele quarto quente e abafado cheio de moscas, aquela recepcionista, uma senhora sem os dois dentes da frente e uma longa cicatriz na lateral do rosto; ela me tratava como se eu fosse um rei, ou um presidente, alguém muito acima dela; mas era o contrario, o que ela viveu e pelo que ela passou e deve ter sofrido, com certeza era uma pessoa muito mais digna. Mais importante. Ela sempre se curvava quando eu passava, às vezes tirava o pó do meu paletó. Tão disciplinada. Quanto sangue precisa ser derramado para que pessoas virem ovelhas?

Deixou o trompete de lado.

Ainda se sentia meio bêbado. Foi um dos métodos encontrados para aliviar o peso da vida sobre os ombros. Expurgar o estigma de sua alma.

Ele se perde em pensamentos, enquanto observa a mascara yoruba na prateleira ao lado da porta; por algum motivo, o garoto lhe vem à mente. Então ele se levanta e apaga a luz, volta a ligar o gramofone na música Do You Wanna Dance. Ele levanta a mão como se segurasse outra no ar, seu braço cinge uma cintura imaginaria, e seus passos encontram a coordenação que perdera anteriormente.

Agora que ela não está presente, o homem é capaz de pensar nela, até sentir o cheiro do xampu em seus cabelos vermelhos misturado ao perfume que recende de seu pescoço. O toque macio de cada dedo, como se sua pele fosse forrada de seda, seus seios firmes contra seu peitoril, enquanto sua respiração lhe sai morna pelos lábios e chega até a boca dele. E a melodia flui a cada passo. Ele sonha acordado, de pé na escuridão. Dançando com os próprios sonhos.

Minha doce escocesa.

A mulher de cabelos vermelhos alaranjados e encaracolados está sentada à mesa de uma lanchonete, uma xícara de café ao lado, enquanto lê as folhas deixadas aos seus cuidados. Ela acredita que não seja uma violação de privacidade ler textos cuja intenção é ir a público. Ela lê e bebe café, sem pretensão alguma de se levantar antes de terminar toda a leitura. Quando o café acaba, ela pede mais.

[Em lugares assim as pessoas não têm muito, às vezes somente as duas pernas e os dois braços, o que na maioria das vezes se mostra o suficiente. Talvez um pouco de fé em Deus; pelo menos do jeito que foram ensinados a ter, do jeito que foram ensinados a acreditar e até mesmo como foram ensinados a sentir. O que nossas civilizações modernas mais precisam é da retomada da natureza do mundo, isso eles possuem, mas como eles podem aproveitar as folhas verdes das riquíssimas florestas e um mergulhar numa lagoa límpida em meio a inúmeros golpes de estado e guerras civis, em que muitos precisam sangrar e perder familiares somente para um determinado grupo de pessoas tomarem o poder, e consequentemente o petróleo? Não é uma luta para tomar o governo e empreender seu projeto político e sim para monopolizar as riquezas do estado conquistada pelo petróleo e através do trabalho do proletário. Assim se resume a pobreza daquele país – assim se resume a fome. A base da pirâmide não vê e nem sente o cheiro do dinheiro que produz. Essa receita está se tornando cada vez mais presente em nossa atual sociedade, e tende a aumentar. Naquele lugar eles não possuem muito, porém eles têm McDonald’s e Marlboros. Na falta de luxos baratos, eles encontraram seus próprios meios de se entorpecerem: defecam numa panela, depois urinam e colocam a panela ao fogo, para cozinhar, depois de um determinado tempo eles cheiram o cozido de merda e mijo. Eis o ópio deles. A válvula de escape. Como se culpa alguém por isso?]

Ela para um instante para pensar o que leva um homem a não sair de seu apartamento, e quando olha para a própria vida ela vê inúmeros motivos para fazer o mesmo, porém ela continua de pé, prosseguindo; então o que ele tem de tão especial ou aterrorizante para exercer tal condição sobre si mesmo? Já criara inúmeras teorias.

Ela opta não pensar a respeito e pede mais café.

Eva do Éden

eva

Naquela época o Criador ainda possuía o hábito caminhar sobre a terra, costumava contemplar sua criação assim como um artista observa orgulhosamente a própria arte. Ele olhava os animais, ainda inocentes de experiência, e compreendia o que cada um dizia em seu próprio dialeto. Cada arvore possuía sua forma original e um formato padrão; as folhas e as plantas e as flores pertenciam a uma família distinta, assim observar cada uma era como descobrir um detalhe novo a cada passeada pelo Éden. Olhou para um regato, observou, escutou como o som da água corrente soava em seus ouvidos, e com um único suspiro o soar da água alterou-se para um resfolegar tranquilo saído da nascente, em algum lugar no coração do Éden, e o Criador achou agradável, e regalou-se.

Eva desperdiçava o dia correndo atrás de Adão, para lá e para cá, e quando o encontrava sequer sabia o que falar ou sobre o que falar. As preocupações eram limitadas, mas não menos que o numero de palavras conhecidas até então. Ainda assim, Eva suspeitava do que havia, uma duvida mortal em seu coração recém-criado, uma suspeita de que poderia haver algo mais: poderia ser mais que seus olhos viam, ou uma ideia ou forma de pensar, ou o poder de escolher – que até então não compreendia. De alguma forma, o que quer que fosse tinha a ver com Adão.

Seu corpo era belo como apenas pode ser a primeira obra de arte de um artista – não apenas um rascunho, mas um conjunto de detalhes encaixados nos lugares exatos. Cabelos longos e negros, que se esparramavam por sobre seus ombros castanhos e velavam seus seios redondos, o cheiro da natureza rescendendo de seu corpo, e ela caminhava com compassadas leves de seus pés delicados e gentis, observando tudo com olhar cristalino e lábios rosados e carnudos, seus quadris sacolejando, pra lá e pra cá, libertando a sensualidade de seu corpo que sequer ela suspeitava possuir e libido nenhuma poderia instigar em Adão, nem mesmo o formato da polpa de seus glúteos, macios e tenros, porejando inocência: libidinosa sem saber.

E em algum lugar de sua cabeça, em que toda complexidade humana dá voltas e voltas em um curso, volve-se em um turno para se dar consigo novamente, ela suspeitava que houvesse algo mais.

De sete em sete dias o Criador sempre descansava. Foi quando Eva aproveitou para ir até Adão e expressar suas duvidas.

“Adão, acorde!”

Adão permanecia dormindo, assim como seu Criador descansava ao sétimo dia, ele o imitava.

“Deixe-me, Eva.”

“Eu quero conversar.”

“Sobre o quê?”

“Eu não sei, é sobre isso que quero falar. Eu não sei sobre o que falar, mas tem tanta coisa.”

“Não há sobre o que falar, então durma, assim como nosso Criador.”

“Não tem por que dormimos no sétimo dia, dormimos todo nascer e pousar de luz.”

“Eva, deixe eu, podemos conversar depois, a qualquer momento.”

“Não, não sei por que, mas é…”

Talvez Eva quisesse dizer “somente neste instante”, mas tal junção léxica ainda não existia.

“Agora! É agora.” E Adão não compreendia, talvez pela falta de exercício por parte da sua linha de raciocínio.

Adão permaneceu silente, enquanto que Eva encostou o dorso numa arvore ao lado, puxou os joelhos para junto de si, contornando-os com os braços. Ficou a fitar Adão, deitado sobre a relva macia, a cabeça descansada sobre os antebraços, os olhos fechados e o semblante despreocupado, seu corpo nu acobertado pela sombra da copa.

Eva olhou para os botões de rosas ao redor e mais acima, os pássaros adejando no céu amplamente azul e opaco. Adiante de si, na longínqua planície, os animais viviam a vida com a mesma proporção de sentido. Ela suspirou, mas não queria descansar, queria qualquer coisa a mais.

Silenciosa, abrindo caminho pela relva, eu me aproximei. Meu corpo serpenteando sutilmente, rastejando até Eva. Olhei aquela criatura formosa com meus olhos astutos.

“O que se passa com você, Eva?”

“Como você sabe meu nome?”

“Posso responder-lhe com outra pergunta?”

“O que é uma ‘pergunta’?”

“Eu não sou a única serpente do Éden e do além-Éden, mas todas como eu chamam-se de serpentes, assim como é com os leopardos, os gados e elefantes; e você é a única mulher e aquele homem ali deitado é o único homem e mesmo assim cada um de vocês tem seu próprio nome.”

“Desculpe, não estou entendendo” disse Eva, sentindo um nó na cabeça.

“O que eu quero dizer, é que mais de vocês devem vir, Ele já tem tudo planejado. Por que acha que ele dorme?”

Eva permaneceu parada, sem saber se compreendia o que eu lhe dizia, embora o que tenha entendido visivelmente lhe causou frio na espinha.

“Lembra-se da arvore proibida? Do Fruto Proibido? Ele disse que você não poderia ir até lá, mas é para lá que ele espera que você vá, que você coma do fruto.”

“Mas eu não posso, o Criador nos proibiu, não posso comer… Eu não posso. Se eu comer, será errado.”

“E por que seria errado? A verdade é que ele tem um plano, mas tal plano foi por água abaixo a partir do momento que te viu. Ele tem medo de perdê-la.”

“Me perder?”

“Sim” eu respondi, apontando os olhos para Adão, que ainda dormia. “O Criador tem ciúmes dele, mas não pode fazer nada. Se você comer daquele fruto, sua própria criação estará completa, então você pertencerá à sua própria natureza, mas o Criador não quer, Ele quer tê-la somente para Si mesmo.”

Por algum motivo, Eva sentiu raiva, em seguida sentiu receio pela própria raiva, mas mesmo assim gostou do que sentia e junto veio o desejo de rebeldia, subversão.

Quando Adão acordou ainda era dia. Eva não estava pelas proximidades, ele se levantou e decidiu passear pelo jardim. Enquanto caminhava dentro de um bosque, sentiu-se só pela primeira vez. Ele não gostou do que sentia, queria que Eva estivesse por perto. Deixou-se cair de joelhos, seus olhos marejaram e ele se odiou, porque estava triste e sozinho e queria Eva, a queria porque sentia falta da voz da moça.

Então ele saiu do bosque, subiu a colina mais próxima, e do cimo viu Eva e os leopardos, correndo pelo descampado. Ela gostava de correr com os leopardos como se ela própria fosse um, porém correndo sobre apenas duas pernas. Era o lado selvagem dentro dela, animalesco, assim como muitas criaturas buscam sua própria maneira de deixar a vida se manifestar.

Então veio o desejo, abrindo caminho pelo seu espírito pudico enquanto contemplava a mulher correndo com os leopardos. Sua alma queimava por dentro, e sentiu seu sexo – que até então não sabia para que servisse – ascender, a riste, inflamando por dentro, enquanto o que um dia poderia chamar de pecado dava voltas e voltas dentro do seu formador de vidas. Nunca sentira nada igual anteriormente. Algo aconteceu enquanto dormia, não imaginava o que fosse, mas de um instante para o outro tudo estava diferente. Diante do corpo castanho de Eva, nu, tenro, com os cabelos ao vento, correndo como um animal indomável, com o sorriso desbotando de seu rosto, a beleza do Éden se esvaziou. Adão caiu, com as duas mãos cingindo seu membro ereto, sentindo o desejo inflamar sob o prepúcio, tentando reter o que trazia um certo naco de culpa consigo.

Quando os leopardos se distanciaram e Eva não pôde mais acompanhá-los, ela foi para dentro do bosque, sorrindo para si mesma, sob a sombra das arvores, e apoiou suas mãos sobre seu órgão sexual. Lembrou-se do fruto da arvore, que o comera todinho: talvez assim o Criador nunca descobrisse. Ela permaneceu sentada sorrindo, satisfeita com a própria rebeldia e nada poderia trazer-lhe mais felicidade.

Desde então nunca sentira aquela parte do seu corpo emitir algum sentido, mas agora, toda vez que pensava em algo, era seu órgão que respondia, rompendo-lhe toda linha de pensamento. Era a respeito disso que eu tinha lhe dito, o fruto não era o pecado, apenas a emancipação da natureza.

Seu dedo do meio foi ao clitóris – cujo até então não saberia nomear. E remexeu-o, os dentes contraídos contra o lábio inferior, e o movimento do dedo foi ligeiro e brusco, com inocência na arte de regalar-se com o enlevo corporal. Frustrou-se ao satisfazer-se muito rapidamente. Respirou com um pouco de dificuldade, sentindo o suor verter de seu rosto, então decidiu usar o indicador e pousar-lhe a poupa no clitóris, flexionando o dedo lentamente, com cadencia. Sentiu o êxtase vir, gradualmente, conforme seu dedo flexionava com leveza. As palpitações de seu coração recrudesceram violentamente, o sangue em suas veias correu ao contrario, seu pulmão bombeando a respiração pra fora de si. Ela sentiu algo vazar dos canais de seu órgão e esguichar sobre a grama imaculada do Éden. Descobrira a própria sexualidade, arfando com um sorriso infantil e malicioso na face.

Uma mão grande apertou seu pescoço e a empurrou violentamente contra o solo. Seus olhos dilataram e ficaram perplexos diante do semblante de Adão que aparentava tão confuso quanto o dela. Ele ficou parado por um tempo, sem saber o que fazer. Então seu órgão virginal novamente se ergueu, o sangue fervilhando. Ele arriscou colocar dentro dela. As coxas dela se cruzaram, ele insistiu, usando uma das mãos para desfazer o bloqueio e forçar a entrada lentamente…

nervosismo esfomeado, mastigando-a, sem pressa, num vórtice, capaz de congelar o sangue, mastigando cuidadosamente

… Sentindo a maciez dos lábios vaginais, e entrou bruscamente, duas, três vezes… Decidindo oscilar no ritmo, contraindo as nádegas conforme seus quadris empurravam para dentro. Ouviu a própria voz grunhir dentre os dentes cerrados. Suas duas grandes mãos apoiadas na grama, ainda inocentes demais para tirar proveito do corpo dela. As pernas de Eva puxaram-no para junto de si – como se ela própria dispusesse de demasiada experiência – e sua cabeça pendeu para trás, com a boca arreganhada, se entregando por completo enquanto sua voz resfolegava rouca, apertando as pestanas, depois fechando os dentes e arreganhando a boca novamente; seus dedos se enfiaram nos cabelos bastos dele e comprimiram com força cada fio que conseguiram apanhar. Finalmente Adão conseguiu gozar e foi como se tivesse nascido verdadeiramente, como se a existência se fizesse útil e o prazer da vida lhe subisse ao cérebro… E então tudo valia a pena.

Ficou parado, trêmulo, ainda dentro dela, deixando fluir aquilo que posteriormente seria nomeado de endorfina, e quando terminou e seu sexo murchou, olhou para o rosto de Eva. A impressão de como se a visse pela primeira vez, notando sua beleza fisionômica, seus lábios perfeitos e os contornos de seu nariz e dos zigomas, os olhos cintilantes reluzindo a própria alma, duas esferas cristalizadas, diáfanas, intrínsecas à perfeição de seu rosto castanho. Ele não conteve a ação do beijo, nem o movimento de sua língua com a língua dela, e havia algo mais naquilo, como se após cumprirem o desejo de seus corpos agora atassem o dever com as suas almas. E poderiam dar nome àquilo, pois a fornicação cedeu prazer ao cérebro, mas o que sentiam agora tinha parte com o coração. Foi então que perceberam que, assim como seus respectivos órgãos sexuais, o coração também ganhara utilidade.

Naquele exato instante os botões de rosas pela primeira vez se abriram e os espinhos nasceram dos caules. Os próprios animais se olhavam com outros olhos. O céu, que até então era separado apenas pela escuridão e pela luz, gerou as primeiras nuvens, que de quebra eram cinzentas e úmidas, se espremeram tanto até caírem lagrimas do céu. Fora a primeira chuva a cair sobre a terra, e a lavar os animais e alimentar as plantas e as arvores. A torrente não perdoou nem mesmo os corpos nus de Eva e Adão, ainda rentes, com os lábios colados um no outro: agora duas formas de vidas empapadas, capazes de pertencerem somente a si próprios e adorarem somente a manifestação da carne.

Quando o Criador acordou, a chuva há muito já cessara. Ele caminhou pelo jardim, e observando a planície adiante, percebeu que os animais pastavam. De imediato ele soube o que ocorrera. Ele percorreu todo o jardim a procura de suas duas obras perfeitas, tentando negar que o que sentia era ódio. Ódio pela desobediência alheia, por agora poderem sentir o que ele próprio sentia, por serem iguais a Ele. Após procurá-los, concluiu que haviam fugido do jardim. Seu ódio transformou-se em fúria.

Eva e Adão chegaram a uma praia, e à primeira vista do mar se maravilharam. Sorriram um para o outro, aparentemente toda a desobediência parecia trazer um novo presente para eles. Tudo pelo que arriscaram valia a pena. As ondas vinham do horizonte e quebravam na sedimentação, Eva correu na direção do mar. Adão contentou-se em observá-la: viu o corpo dela minguando na distancia, entrando e saindo da água aos mergulhos motivados por fortes e juvenis braçadas.

Do horizonte, Adão viu uma minúscula figura vindo sobre a água. A forma em movimento crescia conforme se aproximava, até que de longe ele pôde distingui-lo. Era o próprio Criador, com seus pés pisando sobre as águas como se caminhasse sobre a extensão sólida do Éden. Adão decidiu correr até o mar para chamar Eva, mas foi impedido pela fraqueza das pernas, ficando de cócoras e abraçando o abdome.

O Criador parou e afundou a mão dentro d’água, puxou-a em seguida com seus dedos agarrados aos longos cabelos de Eva, e a levantou; o rosto dela se contorcendo de dor. Prosseguiu caminhando sobre as águas, trazendo-a pelos cabelos, inflexível até mesmo ao som dos gritos abafados de sua adorável criação.

“Sabe o que é isto?” disse a voz do Criador, soando como uma corrente elétrica, um choque retumbante contra a densidade do ar “o nome disso é dor. Não existe prazer sem dor. Há um equilíbrio.”

Ele a olhou de esguelha e percebeu que ela cobria o sexo com as mãos.

“Você está sentindo pudor, deve ser horrível sentir pela primeira vez.”

Chegando na margem a jogou contra o cabo. O Criador olhou para a imagem abatida de Adão, decaído pela primeira fraqueza causada pela fome, como se o corpo dele o traísse. Quando Adão viu a imagem sobranceira do Criador diante de si, cobriu o próprio sexo, igualmente fizera Eva.

“Vocês sentem pudor” disse o Criador, sem olhar diretamente para eles “sentem dor, e frio, e fome, desejo, e agora que eu os expulso do jardim, descobrirão algumas necessidades mais.”

Um relâmpago cruzou o céu, que escureceu e agitou as águas, e com mais força que da primeira vez a chuva desabou. Os olhos do Criador acenderam e se transformaram em duas estrelas sob a chuva plangente.

“Você traz algo consigo” disse olhando para a vulva de Eva “o pecado não é o que vocês fizeram…

divergência entre amoral e imoral, o que fora  feito nada mais que amoral; quando assim, no ato não há macula

… Mas o que o ato de vocês trará ao mundo. Conforme o filho do homem venha ao mundo ele trará mais, e novos conhecimentos os forçaram a parir novos pecados” sua expressão se fechou e ele continuou: “a partir de agora, o filho do homem me chamará de O Senhor” e olhou para as suas duas criações perfeitas, diminuídas e envergonhadas, dois animais acuados banhados pela chuva e pela impotência, e viu que isso era bom.

Ao se virar para partir, por sobre o ombro olhou mais uma vez para Eva, a jovem-mulher que após criá-la se maravilhou com a imagem e agora estava insatisfeito por ela não pertencer mais a Ele e sim a si mesma. Não poderia tê-la nunca, ela não dependia mais Dele, ela era livre e independente, fizera descobertas sozinha e agora viveria ao lado de Adão e o amaria e faria amor com ele. Seriam felizes na própria miséria.

Eva era como um livro cujo escritor ao dar inicio logo é conduzido pela obra, que acaba por escrever por si própria e foge do controle do próprio escritor.

O Senhor desapareceu e nunca mais fora visto por os pés no mundo novamente.

Após horas, a chuva finalmente cedeu. Eva ainda estava deitada na areia, a alma manchada de pudor, corpo e cabelos molhados, quando passou a mão no rosto, percebeu que chorava. Adão estava de joelhos, uma forma petrificada, humilhado. Ele deixou os olhos caírem sobre Eva, pensou no que haviam feito e sentiu o sangue congelar. Ele não poderia saber, mas pela primeira vez ele era verdadeiramente humano, tão dono de si quanto Eva, capaz de fazer suas próprias escolhas e pagar por elas. E Eva era sua escolha, a escolhera sem pudesse perceber. Talvez fosse orgulho o que seus olhos abatidos reverberavam enquanto a fitava. Ele engatinhou até ela e a tomou em seus braços, enterrou o rosto no ombro dela e sussurro: “você fez o melhor, o melhor que pôde. O que são as demais cousas quando temos um ao outro?”

Os olhos de Eva continuavam marejados. O desespero dentro dela não diminuíra. Sua vida, agora sob sua posse, a assustava – a liberdade era como engasgo que se reluta em engolir. Ela comprimiu os lábios e se deixou chorar, a liberdade veio junto das lagrimas, como uma explosão que engolira todo o sentido da Criação consigo.

Ambos levantaram-se, com as mãos juntas e os dedos frágeis entrelaçados, prosseguindo para qualquer lugar que fosse. Poderia ser qualquer lugar contanto que sempre estivessem juntos.

E esses são os acontecimentos que me foram permitidos assistir. Eu que sou serpente, astuta e arguta observadora, sobrevivi insistentemente ao tempo e continuo contando essa historia para todos os demais animais. Ainda há muito para ser dito, pois houve muito depois. Alguns chamam de queda do homem, mas somente porque não estavam lá e porque é mais conveniente julgar a pensar a respeito. O homem apenas foi homem, e tem agido feito homem desde o dia em que do pó foi-lhe soprada a vida, e não há nenhuma obrigação que envolva deixar de ser o que se é: seja sentado em um trono ou pregado numa cruz.

Quanto a Eva, ela sempre será mãe de todas as mulheres, sua imagem perfeita cuidadosamente delineada como uma ideia primaria para as demais que viriam. Um dia a chama de sua feminilidade incendiou a inocência do Éden. Uma mulher nem melhor e nem pior do que as outras.

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