Quando Eu Conheci Chico Buarque

by ivannfreitas

 

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Eu tinha esperado a chuva estiar antes de sair do Conjunto Nacional. Apesar de ficar andando pela Livraria Cultura em torno de três quartos de hora não comprei nada, enfim. Sai pela Alameda Santos para evitar todo aquele movimento proporcionado pela Paulista que nem mesmo a chuva consegue conter.

Foi quando eu o vi parado, sua sombra projetada sobre a calçada molhada daquele resto de água que reflete o dourado do céu vespertino. Ele estava parado, acabara de acender um cigarro e parecia meditar os pensamentos que vêm somente depois que a nicotina refresca os pulmões para em seguida ser soprada lábios afora. Eu não tinha assunto, mas não poderia deixá-lo escapar, gostaria de dizer qualquer coisa, dizer que sou fã das composições e dos romances; mas de imediato achei que seria uma chateação.

“Ei, Chico Buarque, você teria um cigarro?” perguntei a ele. Como todos sabem, eu não fumo, mas foi a melhor coisa que me veio à mente.

Então Chico Buarque olhou para mim, não disse nada, tirou um maço de Lucky Strike do bolso e de onde eu estava pude ver que havia somente um cigarro. Ele me respondeu:

“Acabaram os meus cigarros… Quero dizer, eu só tenho um. Um homem nunca dá seu último cigarro, é quase uma convenção social” ele sorriu, olhou mais uma vez para o maço amassado em sua mão, e continuou, dessa vez sério e disse quase como se estivesse se desculpando “não é como pegar o último pedaço de pizza, guardar um último cigarro no maço é como guardar uma última epifania para poder usá-la mais tarde” ele voltou a sorrir e concluiu: “guarde esse conselho como se fosse uma pérola, e sua memória uma concha” e mais uma vez seu sorriso caricato.

Acho imprescindível notar aqui que este encontro ocorreu antes de Chico lançar seu romance O Irmão Alemão e da participação na música O Trono do Estudar, e alguns meses após ele ter saído na capa da edição de aniversário da Revista Rolling Stone.

Recordo-me de ter enfiado as mãos nos bolsos e olhar para o asfalto quase seco, enquanto o céu vermelho arrastava lentamente suas nuvens para o outro lado do globo. Começou a ventar um vento fresco, então Chico Buarque olhou para mim ali paradão e não sei se foi por se sentir culpado ou por mero capricho, mas ele me pediu para acompanhá-lo.

Descemos a Augusta até a desembocarmos na Alameda Itu, por onde andamos, se não me engano, por uns quatro quarteirões. Paramos em frente ao prédio onde ele costumava se hospedar quando vinha a São Paulo. “FHC mora a alguns quarteirões daqui” ele me disse, sem pretensão alguma de falar sobre política. Eu sempre conheci suas preferências políticas e logo segurei qualquer intenção de falar a respeito.

Entramos em seu apartamento, um imóvel com espaço agradável e que parecia se alargar mais devido a pouca mobília. Chico disse que quando vinha a Sampa (sim, ele disse Sampa) não permanecia por muito tempo, por isso o apartamento tinha a aparência de um imóvel ainda a venda.

“Mesmo ficando pouco tempo na cidade, prefiro ficar em um apartamento alugado a me hospedar num hotel. Odeio me sentir um turista quando venho a Sampa.”

Essa última frase me agradou. Então ele foi a um cômodo e voltou com um maço de Lucky Strike e tirou dois cigarros, um pra mim e outro para ele.

“Vamos para a varanda, não quero que o cheiro de cigarro impregne o apartamento, tenho expectativa de revendê-lo algum dia.”

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Acendemos nossos respectivos cigarros na varanda, que tinha uma excelente vista para a cidade, perguntei se podia tirar foto dele, mas ele não deixou, apenas de seu apartamento. Pensei em dizer qualquer coisa, falar sobre suas canções e livros, mas imaginei que artistas devem odiar falar sobre seus trabalhos, como se já não houvesse críticas e matérias suficientes.

“Você gosta de Pink Floyd?” perguntei.

“Pink Floyd, não é o mesmo que perguntar se eu gosto de arroz com feijão?” ele respondeu, um pouco ríspido, depois olhou para o horizonte e sorriu.

“Sabe, eu também escrevo.”

“Você já leu Budapest?”

“Sim, mas preferi Benjamim.”

“O que você achou de Budapest? Quero dizer, se você gosta de escrever deve gostar de ler também, e deve ser crítico.”

“Bem, não sou nenhum crítico profissional.”

“Nenhum crítico o é até alguém dizer que ele o é” agora ele falava mais bem humorado.

“Bem, Sr. Buarque, vejo em Budapest um forte sentimento de desconforto, uma espécie de desconforto hipocondríaco, kafkiano sem ser kafkiano” sorri, e tossi ao mesmo tempo, afinal, como todos sabem, não sou fumante. Mas naquele momento o tinha de ser.

“Não sei se entendi o que você disse, talvez você tenha dito desse jeito pra me confundir” ele sorriu novamente e me disse “você é fumante?”

“Não quer saber sobre o que eu escrevo?”

“Diga-me qual editora te publica que depois eu leio a resenha.”

“Tecnicamente nenhuma editora me publica, mas não quer dizer que eu…”

“Diga um aforismo para São Paulo.”

“Como?”

“A melhor forma de separar amadores de não amadores, quem pode e quem não pode produzir frases curtas em curtos espaços.”

“Irresistivelmente desconcertante. São Paulo é isso.”

“Cigarros?”

“Fumar é um jeito conveniente de morrer.”

Ele sorriu e depois disse “Chuva.”

“Pode lavar nossos corpos, mas nunca nossa consciência.”

“Eu trocaria consciência por alma.”

Por um instante fiquei a olhá-lo e era de fato aquele que é considerado o maior compositor brasileiro desde a chegada das caravelas. Ganhador do Festival de Música Popular Brasileira de 1966, e vencedor de três prêmios Jabuti; era um velho com um sólido sorriso jovial, olhos azuis bem vivos, diferente do que se espera de um homem de cabelos brancos e intelecto intimidador.

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“Se você não fuma não precisa fingir para me agradar” ele disse novamente, dessa vez sem sorrir “você deve beber algo, não?”

“Se tiver uísque, de preferência Jack Daniel’s.”

Chico entrou enquanto eu o esperava no sofá da varanda, voltou com dois copos de uísque com gelo e um cinzeiro. Sentamos numa mesa próxima. Fiz o gelo tilintar e ele sorriu; talvez esperasse que eu fizesse isso.

“Gostaria de fazer mais alguma pergunta? Você parece se coçar por isso.”

“Que tal sobre política, você ainda fala sobre política? Aposto que odeia falar sobre política hoje em dia.”

“Falar sobre política hoje em dia é complicado, principalmente na minha idade; esse é um privilégio para os jovens. Sinceramente é mais fácil ser crítico em períodos como os da ditadura, hoje em dia o inimigo político é um pouco mais sutil, exige um olhar mais arguto, um olhar mais jovem.”

Ele acendeu outro cigarro e teve prazer de fazê-lo enquanto bebia da dose de uísque. Depois ele perguntou: “por que a preferência por Jack Daniel’s?”

“É o único uísque que eu de fato reconheço o sabor, faz-me me sentir em casa.”

“Eu sei muito bem como é isso Ivan, eu utilizo a mesma fórmula quando viajo a um lugar diferente.”

“Já ouviu a teoria de que você não escreve seus livros? Que usam seu nome como vitrine” arrisquei ponderar.

“As pessoas falam demais, o que você acha?”

“Não se encaixa muito no seu perfil, né…” admito que sorri meio abobalhado.

“O perfil que você tem de mim é o perfil midiático; mas e o Chico comum, ele está imune a falhas de caráter?” respondeu de forma bem amistosa, não parecia ser um homem que se deixasse chatear facilmente “quando você é conhecido como símbolo cultural as pessoas te veem como um totem. Eles pensam que você deve ser um exemplo de conduta social, o que é uma tolice. É como dizer que Tom Jobim não peidava ou que Machado de Assis não se masturbava.”

Eu sorri e ele parecia bem satisfeito ao ter dito aquilo. Ficou me olhando, e seu olhar era o de um homem bem tranquilo, não um olhar de um senhor bem tranquilo, o de um homem no seu auge! Dificilmente você o se referiria a ele de senhor isso ou senhor aquilo.

Foi neste instante, até onde me lembro, que tentei esquecer que estava conversando com Chico Buarque.

“Vou te dizer por que é uma tolice” Chico continuou a dizer: “se as pessoas esperam que você seja um exemplo de conduta moral, você está sendo um exemplo para quem? O fato de Pelé fazer mil gols tem alguma coisa a ver com o caráter dele? O fato de eu escrever e compor músicas engajadas e até mesmo – a primeira vista – complexas, me impede de encher a cara até vomitar, ou fumar ou falar palavrão? Se eu for uma conduta moral ambulante, só estarei provando que as outras pessoas não podem ser; quando você é um artista e mostra suas falhas de caráter, apenas prova aos outros que isso é natural, e que esses defeitos naturais não impedem ninguém de nada.”

“Entendo, você nunca escondeu que na sua juventude… pegava carro ‘emprestado’ para dar umas voltas.”

“Sim, eu nunca escondi que roubava carro pra rodar o Rio de Janeiro, hoje não sou melhor que aquele garoto inquieto” ele sorriu novamente, apagando o cigarro no cinzeiro “vou te dizer uma coisa Ivan…”

“Ivan Freitas.”

“Vou te dizer uma coisa Sr. Ivan Freitas, essa vida é mais que uma refeição de ostras.”

Quando percebi, a cortina da noite já havia sido puxada, a cidade que até então berrava, agora sussurrava. E eu sentia o Bourbon me subir à cabeça.

“Qual sua música de favorita de Chico Buarque?” ele me perguntou.

“Difícil dizer, mas posso te dizer qual foi a mais impactante da minha vida.”

“Qual?”

Era eu ou o álcool falando?

“João e Maria.”

“O senhor está falando sério?”

“Lembro-me de ouvi-la quando ainda estava no prézinho, tem um puta valor nostálgico para mim. Um puta valor!”

 

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