O Moedor de Carne Humana

by ivannfreitas

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O jeito dela andar era um tanto engraçado, pelo menos ao olhar de muitos; peculiar talvez seja o termo adequado. Os pés pareciam um tanto desajeitados enfiados nos sapatos pretos, os joelhos em movimento desenvolto, mas do ponto de vista de outros era um jeito único que lhe conferia um certo charme por tal singularidade.

A sacudir o quadril o vestido balança batendo em seus joelhos – um vestido azul-marinho, pingado de bolinhas brancas. Um lenço amarelo cingindo seu pescoço, enquanto seu rosto é sombreado pela aba do chapéu de veraneio. Sua pele é branca a tal ponto que quase chega a ser rosada, fazendo seus braços e pernas parecerem lençóis transparentes. Em torno de seu ombro está a alça de sua bolsa, enquanto que debaixo do outro braço há jornais dobrados.

Ela entra no saguão de um prédio de apartamentos, acenando para o porteiro – refestelado na poltrona atrás de sua mesa – e entra no elevador. No sexto andar ela desce e antes de bater à porta do apartamento 66 seu punho se retém no caminho. Ela encosta o ouvido na porta, escutando o som do trompete vibrando dentro do cômodo um jazz triste e solitário, uma voz que clama pelo silêncio. Ela encosta a palma da mão à porta e é como se tocasse o peito de um homem, intimamente, enquanto que o som do trompete é como o palpitar quente do coração.

Sua mão vasculha a bolsa e retira uma chave. Ela enfia a chave no buraco da fechadura, antes de virar, ela para e reflete durante um tempo, dentro de si a vontade de dar meia-volta; “já chega disso!” pensa. Então, com misto de dúvida e arrependimento, ela destranca a porta e a abre.

Um homem, nem velho e nem jovem, de cabelos grisalhos, está sentado numa cadeira ao lado da janela. Ele maneja o trompete com as mãos e o sopro de seus lábios possui poder alquímico. Mesmo ao entrar da mulher de vestido azul-marinho ao apartamento – seguido do bater da porta, como que para lhe tomar a atenção – ele se mantém fiel à sua atividade, como se sequer tivesse percebido.

Ela deixa a bolsa sobre o sofá, aspirando o cheiro de mofo do apartamento, trazendo para as cordas nasais o bolor das paredes e o calor de um cômodo aparentemente aconchegante. Gradualmente o som do trompete oscila: ao término, o homem observa-a, como que surpreso, deixando o instrumento de lado.

“Oi” ela diz.

Ele sorri, levanta-se e vai até ela, retirando-lhe o chapéu da cabeça, deixando os cabelos vermelhos se esparramarem em forma de caracóis e pousar-lhe nos ombros. Ele olha profundamente em seus olhos e seu rosto descoberto das abas do chapéu é tão pálido quanto seus braços e pernas, salpicado de sardas laranjas, que nunca chegam a encostarem umas nas outras. Ela solta um sorriso forçado, de lábios fechados, lábios finos e quase incolores. Ela sabe que ele detesta batom, aprendera – a custo de erros sucessivos – a agradá-lo.

“O que há de novo no front?” ele diz. Sua voz parecendo exausta.

Ela bate os jornais contra o peito dele e se deixa afundar no sofá, abre a bolsa e retira um maço de cigarros.

“Escocesa” o homem diz “você sabe muito bem que cigarro é proibido aqui dentro.”

“Quantas vezes preciso dizer que não sou escocesa?” Ela responde, depois acende o cigarro.

“As únicas pessoas no mundo que possuem os verdadeiros e selvagens fios de cabelos vermelhos são as escocesas, de pele branca e rosto sardento” disse ele, vitorioso.

Ela não dá a mínima. Mantém o cigarro aceso.

Ele a observa com prazer, o prazer de ver algo que gosta, agindo da forma como espera que aja, divertido como ver a vida se desenhando involuntariamente, mas da forma como espera que cada contorno se transcreva. Ela cruza as pernas, ele sente um dejà vu, talvez houvesse previsto este movimento, ou fosse uma crença infantil de que nada foge de seu controle.

O homem apoia as mãos no quadril e joga a cabeça para trás, arqueando o torso, sentindo o estalar da coluna, voltando à posição original em seguida, aos suspiros. Volta a se sentar na cadeira à janela, olhando para o mundo do lado de fora, o jornal espremido em suas mãos. Ele torce o jornal e é como se torcesse o mundo: pois ali o mundo estava comprimido. Do lado de fora da janela, ele podia enxergar a cidade, mas sem nenhum desejo. Nenhuma cobiça ou admiração.

Ele volta o olhar para a mulher de cabelos ruivos, olhos tristes, repletos de coisas enterradas por trás da íris. A mulher fumando, seu único contato com o mundo lá fora. O mundo que para ele tornou-se cansativo e mal. Doentio. Cancerígeno.

Ele abre o jornal e seus olhos esquadrinham pelas páginas. Algo de novo no front? Nada de novo sob o sol. A humanidade fedendo a carnificina e corpos queimados em algum lugar na Nigéria, algum lugar no Oriente Médio, algum lugar na Ucrânia. Ele não podia deixar de pensar que a guerra de alguma forma estava ligada à antiga exploração europeia no continente africano e no oriente. Todo mal e carnificina de alguma forma estava ligado a pessoas bem vestidas e educadas, refinadas e de prosa agradável e inteligente. Todo o mal estaria entrelaçado à única coisa boa no mundo: a boa cultura.

O jornal fedia a gordura humana na frigideira.

Se existia algo de belo, verdadeiro e capaz de fazer um coração apaixonar-se sem sentir culpa, eram esses encaracolados cabelos vermelhos. Mesmo que o mundo sempre estivesse caótico e barulhento, haveria pequenas coisas para se apegar e amar antes do fim.

Mais um suspiro.

“Vai ficar caladão, me olhando deste jeito?” disse a mulher ruiva “você me dá arrepios quando me olha assim.”

O olhar dele deslizou pela superfície das cruzadas pernas dela, como uma prancha sobre as ondas, sentindo o sabor de cada deslize, até onde começa o vestido, podendo até mesmo sentir o cheiro. Um botão de rosa prestes a desabrochar. Amor não se compra, mas com sexo a historia é diferente.

“Cachorra” ele respondeu, sentindo o peito apertar: “vadia!” continuou, levantou-se e pegando-a pela nuca, virou-a contra o sofá, com os dedos da mão enterrados nos cabelos dela; ela com as mãos apoiadas no braço do sofá, e os dedos dele pincelando a aba do vestido dela, descobrindo a recendente carne macia valvulada.

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Ele toma café lendo o jornal, agora com óculos antecipando os olhos, os músculos de seu corpo relaxados – apaziguados nervos sob as têmporas. Suas narinas sorvendo o cheiro do café. Ela deitada de lado no sofá – uma perna sobre a outra –, olhando para ele, o cigarro pendendo dos lábios exaustos. Observando-o, percebe como se entrega à leitura, o frenesi em seu olhar faminto, a firmeza com que seus dedos seguram a alça da caneca de café.

“Eu tive um sonho noite passada” ele diz sem tirar os olhos do jornal “se lembra daquele filme do Pink Floyd, em que as crianças pulam dentro de um moedor de carne? Então, eu andava pela plataforma e mesmo sabendo o que haveria ao final continuei caminhando até entrar no moedor, até virar carne moída; depois me colocaram numa bandeja, cobriram-na com uma redoma; eu era levado a algum lugar, dentro da redoma eu podia escutar os chomps! chomps!, línguas saltando contra palatos, e ao levantarem a redoma,  lá estava uma mesa muito refinada e abundante de comida, iluminada por velas enfiadas em castiçais dourados, rodeada por aristocratas de toda espécie, todos muito esnobes.”

“Às vezes você tem uns sonhos assustadores” respondeu em tom áspero.

O olhar dele se deslocou do jornal para ela e de volta para o jornal.

“Você vai precisar de algo para comer?” ela disse.

“Não, o garoto já trouxe o que eu precisava.”

“Então ele continua vindo.”

“Cada um faz a sua parte, se eu te pedir para me trazer de comer, você se perderá do seu papel. Cada um tem seu papel e é preciso manter assim para que haja ordem.”

“Você não acha que esse tal garoto é muito jovem para ajudá-lo a manter o seu enclausuramento?”

Virando a página do jornal, ele não responde, levanta-se e entra num quarto contíguo. A mulher de cabelos vermelhos o acompanha com os olhos, senta-se, afunda a cabeça do cigarro no cinzeiro e volta a se deitar, uma perna sobre a outra.

As coisas que ele viu, em seu trabalho jornalístico, no Iraque, no Marrocos, no Haiti, em outros lugares, tantos lugares… Ele nunca diz nada. Às vezes parece se lembrar e tenta expulsar com a música, com o sopro. Naquele dia ele acordou assustado, como um cachorrinho, sonhou que comia um bolo feito de barro e lama, que não conseguia parar de mastigar, que podia sentir o gosto de terra escorregando garganta abaixo; disse que era assim que se desjejuava no

Ele volta com papéis em mãos e os deixa sobre a mesa de centro.

“São os artigos dessa semana?” a mulher pondera.

Ele volta para a janela e para a observação do mundo.

“Veja só os vendedores ambulantes, um policial mal aparece flanando pela esquina e eles já levantam seus tapetes de quinquilharias e saem aos corres; que puta cena engraçada! Eles são um barato.”

Ele voltou a se sentar, ameaçou pegar o trompete, mas desistiu, para dizer:

“Sabe o que me lembram esses camelôs, os vendedores ambulantes de Jesuralém, e eles comercializam lá da mesma forma que faziam há uns oitocentos anos.”

A mulher gosta do jeito dele de falar, de como se apega ao problema, e de como o disseca como se fosse uma coisa simples, um simples contemplar de um quadro na parede, de cores sutis. Ela levanta a primeira folha da pilha sobre a mesa de centro e se deixa levar pelo texto.

“Eu gosto do que você escreve… Não que eu leia muito, na verdade eu detesto ler; não leio revistas e nem jornais, apenas o que você escreve. Mas eu gosto. Talvez por ser você quem escreva, por te conhecer, ler em primeira mão antes de ir às editoras e das editoras para as bancas.”

Ela lambe os lábios e volta a se situar no texto.

[Há um inverno que as pessoas ignoram, o inverno da alma. Ninguém sente mais nada, pois nada mais é novo, tudo se adaptou ao comum, e o comum às vezes perde sua condição de absurdo, exatamente por ser comum. A cultura do comum é vendida nas ruas, nas praças e nos parques, na programação televisiva e nas redes sociais, permanece imbatível nas vitrines das lojas. A informação controla o ponto de vista do bom cidadão, assim como um pastor controla os medos e anseios de suas “ovelhas”. O que está acontecendo na Nigéria não é bom, nem natural, mas está acontecendo, e o que acontece com pessoas de pele negra tende a ser comum – mais quando para o mal que quando para bem. O que se espera de uma civilização de negros como etnia predominante nada mais é que movimentos terroristas, golpes de estado, guerra civil. Quando não acontece, então as coisas estão fora dos eixos, é do interesse do bom cidadão branco que uma civilização de negros se torne uma civilização de “esses africanos não têm jeito” ou “essa maldita terra esquecida por Deus”. As pessoas precisam acreditar nessa premissa, tanto os ricos quanto os pobres. Afinal de contas, o que serviria de melhor satisfação para o homem pobre senão poder ler sobre alguém mais pobre, e ainda poder ignorar a verdade nua e crua com desdém?]

Ela cessou a leitura por um instante. Ele olha para ela e através das bordas de seus olhos ele podia ler sua consciência. Indignação, talvez? Algo de bom e misterioso até mesmo para mulheres como ela. Mulheres verdadeiras, da mais pudica beleza fisionômica. Mesmo pessoas de plástico são capazes de extrair sentimentos.

“Você nunca se cansa disso?” ela pergunta, segurando as folhas em mãos como se pesassem toneladas.

“De quê?”

“De sempre ver tudo com o olhar mais frio.”

“Não, porque eu cansei de ignorar as coisas como elas são.”

“O mundo não é perfeito…”

“Não, mas o sopro do Miles Davis era. Pelo menos isso.”

“Você se castiga toda vez que faz isso, é como se pedisse pelo sofrimento.”

“É aí onde você está enganada; escrever é a melhor forma de exorcizar seus demônios. E minha querida, eu tenho demônios o suficiente para repovoar o inferno.”

Ele olhou de volta janela afora.

“Veja só, agora estão todos voltando, que cena engraçada” e sorriu.

“Quem está voltando?”

“Os ambulantes, oras. Os policiais sumiram e eles estão voltando para seus postos” mais uma risada: “eles se dariam muito bem em Jerusalém!”

Então você tem demônios para repovoar o inferno? Que vá você pro inferno sozinho. Você é inteligente, homem, mas está perdendo os parafusos. A solidão, pelo menos este tipo de solidão, nunca fez bem pra ninguém. Receio que um dia eu gire a chave nessa fechadura e ao abrir a porta me depare com seu cadáver pendurado por uma corda presa ao ventilador de teto. E o garoto; que exemplo você daria a ele, hein! Quer dizer que quanto mais inteligente mais maluco. Maluco e engraçado.

Ele volta a se sentar, segurando seu trompete abraçado contra o peito, como se fosse o filho único. A mulher de rosto sardento se levanta e vai até o banheiro. Ela gira o fecho da porta, apoia as mãos na pia enquanto fita o próprio reflexo no espelho. Toda vez que fazia isso encontrava dificuldade em se reconhecer. Ela fitava o próprio rosto sem conseguir acrescentar uma personalidade, e se fosse para dar forma à sua personalidade atual, dificilmente encontraria em seu semblante.

Ela vai até o vaso sanitário, abre a tampa e vê a água limpa e transparente, odorosa, aparentemente asséptica. Assim como as pessoas. O homem do outro lado da porta estava visivelmente acabado, se deteriorando, escorregando para um abismo do qual as demais pessoas conseguem se desviar. Ele não é como a água na privada, mas as demais pessoas costumam ser. Sempre conservadas e carregadas com o esplendor da vida. Porem sujas, com suas invisíveis bactérias sob as trincheiras.

Em seu ventre ela sente, um enjoo recrudescente, gradativo, e de repente a boca se abre e tudo o que comeu e bebeu durante o dia sai pra fora, infectando a aparente água límpida. Tudo de ruim, como exorcismo. Ao se erguer, limpa a boca com papel higiênico, abrindo a lata de lixo se depara com um troféu do Prêmio Esso, enterrado junto de papel sujo e maços de cigarro; percebe em seguida que o banheiro sutilmente cheira a cigarro. Cretino!

Enquanto sai do banheiro, ela volta para um cômodo que agora está escuro, todas as cortinas foram puxadas, a luz fora apagada e sobre a mesa de centro há duas velas acesas, juntamente de duas taças, cujo homem as preenche de vinho.

“Já representamos nosso lado… Selvagem” ele diz “agora iremos partir para a plataforma do romantismo.”

“Como se o amor pudesse ser comprado.”

“O amor só pode ser comprado, as variações de permuta divergem apenas no ponto de vista.”

Ela se senta no sofá, levanta a taça e ambos brindam, sem dizer nada, deixando o vinho descer a seco, escorrendo com seus sentimentos, anestesiando suas inquietações.

“Você acredita mesmo que o mundo está doente?”

“Não quero falar sobre o mundo, quero falar sobre você.”

“Não há nada para se falar a meu respeito.”

“Discordo.”

A taça dela é enchida novamente, dessa vez por um homem animado.

“Se quiser tenho algo mais forte.”

“Por enquanto o vinho já basta. Você não enche sua taça?”

Em resposta, ele emboca a garrafa nos lábios e deixa o vinho descer, pousa a garrafa sobre a mesa e olha para a mulher com um olhar dormente, enquanto um pouco do líquido escorrega pela lateral de sua boca. E diz:

“Eu preciso escrever sobre os vendedores ambulantes, a voz deles precisa ser ouvida.”

“E quem disse que eles querem dizer algo?”

O homem suspira, deixa as costas encontrarem conforto no sofá, pensando em qualquer coisa que não pudesse ser traduzida.

“Até os mortos procuram se expressar.”

Ok, você está chegando ao cume da maluquice.

“Todo mundo diz algo, mesmo que não perceba, homens como eu têm o trabalho de escolher o que precisa ser ecoado e o que precisa ser sussurrado; até então, as vozes mais importantes apenas conseguem sussurrar na mídia.”

“Ok, eu entendi.”

“Agora irei falar sério, escocesa” ele diz, novamente inclinando a garrafa sobre sua taça “Você acredita em Deus?”

“Não sei se quero falar sobre isso.”

“Você tem medo?”

“Sim, eu acredito, não sei por quê, mas acredito.”

“Algumas pessoas só querem tocar a vida, mas tem sempre a religião no meio.”

“Deus e religião são coisas diferentes.”

“Mas a religião só existe se houver um deus e sem a religião Deus perde sua mídia jornalística. Em outras palavras, não há Deus sem religião.”

Sem responder, ela dá uma bicada na taça de vinho.

“Você diz que não sabe por que acredita, isso é correto, a crença em Deus não deve ser baseada na razão; a única e verdadeira forma de acreditar é através da fé cega, senão não faz sentido.”

“Vamos só beber, sem dizer nada um pro outro.”

Como que atendendo ao pedido dela, o homem volta a encher as taças com vinho. Conforme o silêncio é prolongado por ambos, eles começam a perceber a sala mais escura. As duas velas acesas os fazem compreender uma grotesca atmosfera romântica do ambiente.

“Eu gosto do seu cabelo.”

Ela levanta o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio. Ele sorri e volta a beber, depois estende a mão, numa mesura para ela esperá-lo, levanta-se e vai para outro cômodo. A mulher o espera bebericando o vinho, procrastinando com pequenas bicadas de passarinho. Ao voltar, ele traz uma bandeja com pizza de micro-ondas.

“Serio mesmo?”

O homem separa da pizza um oitavo de pedaço e o levanta a altura da boca.

“Não há talheres?”

“Ainda temos nossas mãos, não? Devemos aproveitar o pouco que temos, mesmo que esse pouco seja mais que o suficiente.”

Ela levanta um pedaço e o leva à boca. Mastigando ao mesmo tempo em que fala, ela diz: “você poderia pelo menos pedir pizza por telefone.”

“O garoto me comprou esta, queria comê-la em um momento especial.”

“Você considera este momento tão especial assim?”

Continua a mastigar, sem resposta alguma. Para o homem, pouco importava o quanto tal momento significava para ela, conquanto que houvesse significado para si.

Conforme ele bebia as maçãs do rosto ficavam avermelhadas e suas pálpebras pareciam mais cansadas, assim como seu olhar.

“Deus estava nesta garrafa!” diz o homem, levantando a garrafa de vinho vazia “agora ele será digerido dentro de mim e depois vai ser mijado” sua voz trazendo um tom de velho embriagado. A mulher de cabelos encaracolados, dando pouco crédito ao que ele diz, nada responde.

“Você me lembra uma garota que conheci na juventude.”

“É mesmo?”

“Ela tinha o hábito de convidar um cara pra sair ao mesmo tempo em que convidava um cara com quem já saía; esse era o jeito dela de dar o fora em alguém.”

“O que te faz pensar que sou assim?”

“Você me lembra ela somente na aparência.”

“Obrigada.”

“Pelo o quê?”

“Por me chamar de jovem” ela sorriu “mas não bastaria ela dispensar o cara como uma pessoa normal?”

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Levantando-se, o homem acende a luz, porém mantendo as cortinas ainda baixadas. Vai ao gramofone sobre uma mesinha encostada na parede. Há um zumbido no ar, rouco, a agulha tocando o vinil, e depois vem o som, uma música, Do You Wanna Dance. Ele vai até a mulher, tirando-a para dançar. Seus dedos entrelaçados nos dela, a outra mão na cintura, passos lentos empobrecidos de coordenação motora.

Mas a única coisa que perambula por entre sua cadeia de pensamentos, enquanto dança ao escorrer da música, é no salto voluntário para dentro da máquina de moer carne humana. Diante da recordação, o cabelo dela já não lhe traz aroma algum, assim como o pescoço, e as mãos perdem a maciez. No fim das contas existe apenas uma bandeja numa mesa. Existem pessoas mastigando e falando e gracejando, simultaneamente, enquanto o mundo fica espremido e esquecido no espaço entre os dentes.

Ele a afasta e com poucas palavras pede para ela ir embora. A mulher, sem responder, pega a bolsa sobre o sofá e vai até a porta.

“Este é seu envelope” diz o homem apontando para o envelope sobre uma prateleira próxima à porta, ao lado de uma mascara de yoruba.

Sem cerimônia alguma, ela pega o envelope e o joga dentro da bolsa, retirando-se porta afora. Seus passos pelo corredor podem ser escutados enquanto ela se distancia, para depois aumentar novamente. Ela volta a entrar no apartamento e pega os textos dele sobre o sofá.

“Volto amanhã?”

Ele fica em silêncio.

“Hein?”

“Sim.”

Ela se retira novamente.

Sozinho, ele volta a se sentar perto da janela, com o trompete em mãos volta a soprar. Um som triste e enrustido, capaz de trazer melancolia ao coração duma criança.

Aquele velho hotel na Guiné Equatorial, aquele quarto quente e abafado cheio de moscas, aquela recepcionista, uma senhora sem os dois dentes da frente e uma longa cicatriz na lateral do rosto; ela me tratava como se eu fosse um rei, ou um presidente, alguém muito acima dela; mas era o contrario, o que ela viveu e pelo que ela passou e deve ter sofrido, com certeza era uma pessoa muito mais digna. Mais importante. Ela sempre se curvava quando eu passava, às vezes tirava o pó do meu paletó. Tão disciplinada. Quanto sangue precisa ser derramado para que pessoas virem ovelhas?

Deixou o trompete de lado.

Ainda se sentia meio bêbado. Foi um dos métodos encontrados para aliviar o peso da vida sobre os ombros. Expurgar o estigma de sua alma.

Ele se perde em pensamentos, enquanto observa a mascara yoruba na prateleira ao lado da porta; por algum motivo, o garoto lhe vem à mente. Então ele se levanta e apaga a luz, volta a ligar o gramofone na música Do You Wanna Dance. Ele levanta a mão como se segurasse outra no ar, seu braço cinge uma cintura imaginaria, e seus passos encontram a coordenação que perdera anteriormente.

Agora que ela não está presente, o homem é capaz de pensar nela, até sentir o cheiro do xampu em seus cabelos vermelhos misturado ao perfume que recende de seu pescoço. O toque macio de cada dedo, como se sua pele fosse forrada de seda, seus seios firmes contra seu peitoril, enquanto sua respiração lhe sai morna pelos lábios e chega até a boca dele. E a melodia flui a cada passo. Ele sonha acordado, de pé na escuridão. Dançando com os próprios sonhos.

Minha doce escocesa.

A mulher de cabelos vermelhos alaranjados e encaracolados está sentada à mesa de uma lanchonete, uma xícara de café ao lado, enquanto lê as folhas deixadas aos seus cuidados. Ela acredita que não seja uma violação de privacidade ler textos cuja intenção é ir a público. Ela lê e bebe café, sem pretensão alguma de se levantar antes de terminar toda a leitura. Quando o café acaba, ela pede mais.

[Em lugares assim as pessoas não têm muito, às vezes somente as duas pernas e os dois braços, o que na maioria das vezes se mostra o suficiente. Talvez um pouco de fé em Deus; pelo menos do jeito que foram ensinados a ter, do jeito que foram ensinados a acreditar e até mesmo como foram ensinados a sentir. O que nossas civilizações modernas mais precisam é da retomada da natureza do mundo, isso eles possuem, mas como eles podem aproveitar as folhas verdes das riquíssimas florestas e um mergulhar numa lagoa límpida em meio a inúmeros golpes de estado e guerras civis, em que muitos precisam sangrar e perder familiares somente para um determinado grupo de pessoas tomarem o poder, e consequentemente o petróleo? Não é uma luta para tomar o governo e empreender seu projeto político e sim para monopolizar as riquezas do estado conquistada pelo petróleo e através do trabalho do proletário. Assim se resume a pobreza daquele país – assim se resume a fome. A base da pirâmide não vê e nem sente o cheiro do dinheiro que produz. Essa receita está se tornando cada vez mais presente em nossa atual sociedade, e tende a aumentar. Naquele lugar eles não possuem muito, porém eles têm McDonald’s e Marlboros. Na falta de luxos baratos, eles encontraram seus próprios meios de se entorpecerem: defecam numa panela, depois urinam e colocam a panela ao fogo, para cozinhar, depois de um determinado tempo eles cheiram o cozido de merda e mijo. Eis o ópio deles. A válvula de escape. Como se culpa alguém por isso?]

Ela para um instante para pensar o que leva um homem a não sair de seu apartamento, e quando olha para a própria vida ela vê inúmeros motivos para fazer o mesmo, porém ela continua de pé, prosseguindo; então o que ele tem de tão especial ou aterrorizante para exercer tal condição sobre si mesmo? Já criara inúmeras teorias.

Ela opta não pensar a respeito e pede mais café.

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