Eva do Éden

eva

Naquela época o Criador ainda possuía o hábito caminhar sobre a terra, costumava contemplar sua criação assim como um artista observa orgulhosamente a própria arte. Ele olhava os animais, ainda inocentes de experiência, e compreendia o que cada um dizia em seu próprio dialeto. Cada arvore possuía sua forma original e um formato padrão; as folhas e as plantas e as flores pertenciam a uma família distinta, assim observar cada uma era como descobrir um detalhe novo a cada passeada pelo Éden. Olhou para um regato, observou, escutou como o som da água corrente soava em seus ouvidos, e com um único suspiro o soar da água alterou-se para um resfolegar tranquilo saído da nascente, em algum lugar no coração do Éden, e o Criador achou agradável, e regalou-se.

Eva desperdiçava o dia correndo atrás de Adão, para lá e para cá, e quando o encontrava sequer sabia o que falar ou sobre o que falar. As preocupações eram limitadas, mas não menos que o numero de palavras conhecidas até então. Ainda assim, Eva suspeitava do que havia, uma duvida mortal em seu coração recém-criado, uma suspeita de que poderia haver algo mais: poderia ser mais que seus olhos viam, ou uma ideia ou forma de pensar, ou o poder de escolher – que até então não compreendia. De alguma forma, o que quer que fosse tinha a ver com Adão.

Seu corpo era belo como apenas pode ser a primeira obra de arte de um artista – não apenas um rascunho, mas um conjunto de detalhes encaixados nos lugares exatos. Cabelos longos e negros, que se esparramavam por sobre seus ombros castanhos e velavam seus seios redondos, o cheiro da natureza rescendendo de seu corpo, e ela caminhava com compassadas leves de seus pés delicados e gentis, observando tudo com olhar cristalino e lábios rosados e carnudos, seus quadris sacolejando, pra lá e pra cá, libertando a sensualidade de seu corpo que sequer ela suspeitava possuir e libido nenhuma poderia instigar em Adão, nem mesmo o formato da polpa de seus glúteos, macios e tenros, porejando inocência: libidinosa sem saber.

E em algum lugar de sua cabeça, em que toda complexidade humana dá voltas e voltas em um curso, volve-se em um turno para se dar consigo novamente, ela suspeitava que houvesse algo mais.

De sete em sete dias o Criador sempre descansava. Foi quando Eva aproveitou para ir até Adão e expressar suas duvidas.

“Adão, acorde!”

Adão permanecia dormindo, assim como seu Criador descansava ao sétimo dia, ele o imitava.

“Deixe-me, Eva.”

“Eu quero conversar.”

“Sobre o quê?”

“Eu não sei, é sobre isso que quero falar. Eu não sei sobre o que falar, mas tem tanta coisa.”

“Não há sobre o que falar, então durma, assim como nosso Criador.”

“Não tem por que dormimos no sétimo dia, dormimos todo nascer e pousar de luz.”

“Eva, deixe eu, podemos conversar depois, a qualquer momento.”

“Não, não sei por que, mas é…”

Talvez Eva quisesse dizer “somente neste instante”, mas tal junção léxica ainda não existia.

“Agora! É agora.” E Adão não compreendia, talvez pela falta de exercício por parte da sua linha de raciocínio.

Adão permaneceu silente, enquanto que Eva encostou o dorso numa arvore ao lado, puxou os joelhos para junto de si, contornando-os com os braços. Ficou a fitar Adão, deitado sobre a relva macia, a cabeça descansada sobre os antebraços, os olhos fechados e o semblante despreocupado, seu corpo nu acobertado pela sombra da copa.

Eva olhou para os botões de rosas ao redor e mais acima, os pássaros adejando no céu amplamente azul e opaco. Adiante de si, na longínqua planície, os animais viviam a vida com a mesma proporção de sentido. Ela suspirou, mas não queria descansar, queria qualquer coisa a mais.

Silenciosa, abrindo caminho pela relva, eu me aproximei. Meu corpo serpenteando sutilmente, rastejando até Eva. Olhei aquela criatura formosa com meus olhos astutos.

“O que se passa com você, Eva?”

“Como você sabe meu nome?”

“Posso responder-lhe com outra pergunta?”

“O que é uma ‘pergunta’?”

“Eu não sou a única serpente do Éden e do além-Éden, mas todas como eu chamam-se de serpentes, assim como é com os leopardos, os gados e elefantes; e você é a única mulher e aquele homem ali deitado é o único homem e mesmo assim cada um de vocês tem seu próprio nome.”

“Desculpe, não estou entendendo” disse Eva, sentindo um nó na cabeça.

“O que eu quero dizer, é que mais de vocês devem vir, Ele já tem tudo planejado. Por que acha que ele dorme?”

Eva permaneceu parada, sem saber se compreendia o que eu lhe dizia, embora o que tenha entendido visivelmente lhe causou frio na espinha.

“Lembra-se da arvore proibida? Do Fruto Proibido? Ele disse que você não poderia ir até lá, mas é para lá que ele espera que você vá, que você coma do fruto.”

“Mas eu não posso, o Criador nos proibiu, não posso comer… Eu não posso. Se eu comer, será errado.”

“E por que seria errado? A verdade é que ele tem um plano, mas tal plano foi por água abaixo a partir do momento que te viu. Ele tem medo de perdê-la.”

“Me perder?”

“Sim” eu respondi, apontando os olhos para Adão, que ainda dormia. “O Criador tem ciúmes dele, mas não pode fazer nada. Se você comer daquele fruto, sua própria criação estará completa, então você pertencerá à sua própria natureza, mas o Criador não quer, Ele quer tê-la somente para Si mesmo.”

Por algum motivo, Eva sentiu raiva, em seguida sentiu receio pela própria raiva, mas mesmo assim gostou do que sentia e junto veio o desejo de rebeldia, subversão.

Quando Adão acordou ainda era dia. Eva não estava pelas proximidades, ele se levantou e decidiu passear pelo jardim. Enquanto caminhava dentro de um bosque, sentiu-se só pela primeira vez. Ele não gostou do que sentia, queria que Eva estivesse por perto. Deixou-se cair de joelhos, seus olhos marejaram e ele se odiou, porque estava triste e sozinho e queria Eva, a queria porque sentia falta da voz da moça.

Então ele saiu do bosque, subiu a colina mais próxima, e do cimo viu Eva e os leopardos, correndo pelo descampado. Ela gostava de correr com os leopardos como se ela própria fosse um, porém correndo sobre apenas duas pernas. Era o lado selvagem dentro dela, animalesco, assim como muitas criaturas buscam sua própria maneira de deixar a vida se manifestar.

Então veio o desejo, abrindo caminho pelo seu espírito pudico enquanto contemplava a mulher correndo com os leopardos. Sua alma queimava por dentro, e sentiu seu sexo – que até então não sabia para que servisse – ascender, a riste, inflamando por dentro, enquanto o que um dia poderia chamar de pecado dava voltas e voltas dentro do seu formador de vidas. Nunca sentira nada igual anteriormente. Algo aconteceu enquanto dormia, não imaginava o que fosse, mas de um instante para o outro tudo estava diferente. Diante do corpo castanho de Eva, nu, tenro, com os cabelos ao vento, correndo como um animal indomável, com o sorriso desbotando de seu rosto, a beleza do Éden se esvaziou. Adão caiu, com as duas mãos cingindo seu membro ereto, sentindo o desejo inflamar sob o prepúcio, tentando reter o que trazia um certo naco de culpa consigo.

Quando os leopardos se distanciaram e Eva não pôde mais acompanhá-los, ela foi para dentro do bosque, sorrindo para si mesma, sob a sombra das arvores, e apoiou suas mãos sobre seu órgão sexual. Lembrou-se do fruto da arvore, que o comera todinho: talvez assim o Criador nunca descobrisse. Ela permaneceu sentada sorrindo, satisfeita com a própria rebeldia e nada poderia trazer-lhe mais felicidade.

Desde então nunca sentira aquela parte do seu corpo emitir algum sentido, mas agora, toda vez que pensava em algo, era seu órgão que respondia, rompendo-lhe toda linha de pensamento. Era a respeito disso que eu tinha lhe dito, o fruto não era o pecado, apenas a emancipação da natureza.

Seu dedo do meio foi ao clitóris – cujo até então não saberia nomear. E remexeu-o, os dentes contraídos contra o lábio inferior, e o movimento do dedo foi ligeiro e brusco, com inocência na arte de regalar-se com o enlevo corporal. Frustrou-se ao satisfazer-se muito rapidamente. Respirou com um pouco de dificuldade, sentindo o suor verter de seu rosto, então decidiu usar o indicador e pousar-lhe a poupa no clitóris, flexionando o dedo lentamente, com cadencia. Sentiu o êxtase vir, gradualmente, conforme seu dedo flexionava com leveza. As palpitações de seu coração recrudesceram violentamente, o sangue em suas veias correu ao contrario, seu pulmão bombeando a respiração pra fora de si. Ela sentiu algo vazar dos canais de seu órgão e esguichar sobre a grama imaculada do Éden. Descobrira a própria sexualidade, arfando com um sorriso infantil e malicioso na face.

Uma mão grande apertou seu pescoço e a empurrou violentamente contra o solo. Seus olhos dilataram e ficaram perplexos diante do semblante de Adão que aparentava tão confuso quanto o dela. Ele ficou parado por um tempo, sem saber o que fazer. Então seu órgão virginal novamente se ergueu, o sangue fervilhando. Ele arriscou colocar dentro dela. As coxas dela se cruzaram, ele insistiu, usando uma das mãos para desfazer o bloqueio e forçar a entrada lentamente…

nervosismo esfomeado, mastigando-a, sem pressa, num vórtice, capaz de congelar o sangue, mastigando cuidadosamente

… Sentindo a maciez dos lábios vaginais, e entrou bruscamente, duas, três vezes… Decidindo oscilar no ritmo, contraindo as nádegas conforme seus quadris empurravam para dentro. Ouviu a própria voz grunhir dentre os dentes cerrados. Suas duas grandes mãos apoiadas na grama, ainda inocentes demais para tirar proveito do corpo dela. As pernas de Eva puxaram-no para junto de si – como se ela própria dispusesse de demasiada experiência – e sua cabeça pendeu para trás, com a boca arreganhada, se entregando por completo enquanto sua voz resfolegava rouca, apertando as pestanas, depois fechando os dentes e arreganhando a boca novamente; seus dedos se enfiaram nos cabelos bastos dele e comprimiram com força cada fio que conseguiram apanhar. Finalmente Adão conseguiu gozar e foi como se tivesse nascido verdadeiramente, como se a existência se fizesse útil e o prazer da vida lhe subisse ao cérebro… E então tudo valia a pena.

Ficou parado, trêmulo, ainda dentro dela, deixando fluir aquilo que posteriormente seria nomeado de endorfina, e quando terminou e seu sexo murchou, olhou para o rosto de Eva. A impressão de como se a visse pela primeira vez, notando sua beleza fisionômica, seus lábios perfeitos e os contornos de seu nariz e dos zigomas, os olhos cintilantes reluzindo a própria alma, duas esferas cristalizadas, diáfanas, intrínsecas à perfeição de seu rosto castanho. Ele não conteve a ação do beijo, nem o movimento de sua língua com a língua dela, e havia algo mais naquilo, como se após cumprirem o desejo de seus corpos agora atassem o dever com as suas almas. E poderiam dar nome àquilo, pois a fornicação cedeu prazer ao cérebro, mas o que sentiam agora tinha parte com o coração. Foi então que perceberam que, assim como seus respectivos órgãos sexuais, o coração também ganhara utilidade.

Naquele exato instante os botões de rosas pela primeira vez se abriram e os espinhos nasceram dos caules. Os próprios animais se olhavam com outros olhos. O céu, que até então era separado apenas pela escuridão e pela luz, gerou as primeiras nuvens, que de quebra eram cinzentas e úmidas, se espremeram tanto até caírem lagrimas do céu. Fora a primeira chuva a cair sobre a terra, e a lavar os animais e alimentar as plantas e as arvores. A torrente não perdoou nem mesmo os corpos nus de Eva e Adão, ainda rentes, com os lábios colados um no outro: agora duas formas de vidas empapadas, capazes de pertencerem somente a si próprios e adorarem somente a manifestação da carne.

Quando o Criador acordou, a chuva há muito já cessara. Ele caminhou pelo jardim, e observando a planície adiante, percebeu que os animais pastavam. De imediato ele soube o que ocorrera. Ele percorreu todo o jardim a procura de suas duas obras perfeitas, tentando negar que o que sentia era ódio. Ódio pela desobediência alheia, por agora poderem sentir o que ele próprio sentia, por serem iguais a Ele. Após procurá-los, concluiu que haviam fugido do jardim. Seu ódio transformou-se em fúria.

Eva e Adão chegaram a uma praia, e à primeira vista do mar se maravilharam. Sorriram um para o outro, aparentemente toda a desobediência parecia trazer um novo presente para eles. Tudo pelo que arriscaram valia a pena. As ondas vinham do horizonte e quebravam na sedimentação, Eva correu na direção do mar. Adão contentou-se em observá-la: viu o corpo dela minguando na distancia, entrando e saindo da água aos mergulhos motivados por fortes e juvenis braçadas.

Do horizonte, Adão viu uma minúscula figura vindo sobre a água. A forma em movimento crescia conforme se aproximava, até que de longe ele pôde distingui-lo. Era o próprio Criador, com seus pés pisando sobre as águas como se caminhasse sobre a extensão sólida do Éden. Adão decidiu correr até o mar para chamar Eva, mas foi impedido pela fraqueza das pernas, ficando de cócoras e abraçando o abdome.

O Criador parou e afundou a mão dentro d’água, puxou-a em seguida com seus dedos agarrados aos longos cabelos de Eva, e a levantou; o rosto dela se contorcendo de dor. Prosseguiu caminhando sobre as águas, trazendo-a pelos cabelos, inflexível até mesmo ao som dos gritos abafados de sua adorável criação.

“Sabe o que é isto?” disse a voz do Criador, soando como uma corrente elétrica, um choque retumbante contra a densidade do ar “o nome disso é dor. Não existe prazer sem dor. Há um equilíbrio.”

Ele a olhou de esguelha e percebeu que ela cobria o sexo com as mãos.

“Você está sentindo pudor, deve ser horrível sentir pela primeira vez.”

Chegando na margem a jogou contra o cabo. O Criador olhou para a imagem abatida de Adão, decaído pela primeira fraqueza causada pela fome, como se o corpo dele o traísse. Quando Adão viu a imagem sobranceira do Criador diante de si, cobriu o próprio sexo, igualmente fizera Eva.

“Vocês sentem pudor” disse o Criador, sem olhar diretamente para eles “sentem dor, e frio, e fome, desejo, e agora que eu os expulso do jardim, descobrirão algumas necessidades mais.”

Um relâmpago cruzou o céu, que escureceu e agitou as águas, e com mais força que da primeira vez a chuva desabou. Os olhos do Criador acenderam e se transformaram em duas estrelas sob a chuva plangente.

“Você traz algo consigo” disse olhando para a vulva de Eva “o pecado não é o que vocês fizeram…

divergência entre amoral e imoral, o que fora  feito nada mais que amoral; quando assim, no ato não há macula

… Mas o que o ato de vocês trará ao mundo. Conforme o filho do homem venha ao mundo ele trará mais, e novos conhecimentos os forçaram a parir novos pecados” sua expressão se fechou e ele continuou: “a partir de agora, o filho do homem me chamará de O Senhor” e olhou para as suas duas criações perfeitas, diminuídas e envergonhadas, dois animais acuados banhados pela chuva e pela impotência, e viu que isso era bom.

Ao se virar para partir, por sobre o ombro olhou mais uma vez para Eva, a jovem-mulher que após criá-la se maravilhou com a imagem e agora estava insatisfeito por ela não pertencer mais a Ele e sim a si mesma. Não poderia tê-la nunca, ela não dependia mais Dele, ela era livre e independente, fizera descobertas sozinha e agora viveria ao lado de Adão e o amaria e faria amor com ele. Seriam felizes na própria miséria.

Eva era como um livro cujo escritor ao dar inicio logo é conduzido pela obra, que acaba por escrever por si própria e foge do controle do próprio escritor.

O Senhor desapareceu e nunca mais fora visto por os pés no mundo novamente.

Após horas, a chuva finalmente cedeu. Eva ainda estava deitada na areia, a alma manchada de pudor, corpo e cabelos molhados, quando passou a mão no rosto, percebeu que chorava. Adão estava de joelhos, uma forma petrificada, humilhado. Ele deixou os olhos caírem sobre Eva, pensou no que haviam feito e sentiu o sangue congelar. Ele não poderia saber, mas pela primeira vez ele era verdadeiramente humano, tão dono de si quanto Eva, capaz de fazer suas próprias escolhas e pagar por elas. E Eva era sua escolha, a escolhera sem pudesse perceber. Talvez fosse orgulho o que seus olhos abatidos reverberavam enquanto a fitava. Ele engatinhou até ela e a tomou em seus braços, enterrou o rosto no ombro dela e sussurro: “você fez o melhor, o melhor que pôde. O que são as demais cousas quando temos um ao outro?”

Os olhos de Eva continuavam marejados. O desespero dentro dela não diminuíra. Sua vida, agora sob sua posse, a assustava – a liberdade era como engasgo que se reluta em engolir. Ela comprimiu os lábios e se deixou chorar, a liberdade veio junto das lagrimas, como uma explosão que engolira todo o sentido da Criação consigo.

Ambos levantaram-se, com as mãos juntas e os dedos frágeis entrelaçados, prosseguindo para qualquer lugar que fosse. Poderia ser qualquer lugar contanto que sempre estivessem juntos.

E esses são os acontecimentos que me foram permitidos assistir. Eu que sou serpente, astuta e arguta observadora, sobrevivi insistentemente ao tempo e continuo contando essa historia para todos os demais animais. Ainda há muito para ser dito, pois houve muito depois. Alguns chamam de queda do homem, mas somente porque não estavam lá e porque é mais conveniente julgar a pensar a respeito. O homem apenas foi homem, e tem agido feito homem desde o dia em que do pó foi-lhe soprada a vida, e não há nenhuma obrigação que envolva deixar de ser o que se é: seja sentado em um trono ou pregado numa cruz.

Quanto a Eva, ela sempre será mãe de todas as mulheres, sua imagem perfeita cuidadosamente delineada como uma ideia primaria para as demais que viriam. Um dia a chama de sua feminilidade incendiou a inocência do Éden. Uma mulher nem melhor e nem pior do que as outras.

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